Tornou-se costumeiro, e não apenas hoje em dia, que a Liturgia da Palavra faça cortes nos textos bíblicos proclamados. Frequentemente falamos de uma "leitura contínua" dos livros da Escritura, mas, na realidade, essa continuidade é repetidamente interrompida por omissões que, embora talvez intencionais por razões pastorais, acabam por empobrecer a mensagem. É um fenômeno antigo, mas que hoje assume um sabor particular, quase uma cautela excessiva, um medo de perturbar ou ofender as sensibilidades do nosso tempo. Mas a Palavra de Deus não deve ser suavizada: ela é viva, penetrante, capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração. E se for amputada, esse mesmo poder salvador é retirado.
Nestes dias, a Igreja nos oferece uma leitura da Carta aos Romanos, talvez a mais profunda e teológica das cartas de Paulo, aquela em que ele reflete com clareza e paixão sobre o mistério da justiça de Deus e a salvação oferecida a todo ser humano. Hoje, 14 de outubro de 2025, a passagem litúrgica é Romanos 1:16-25, na qual o Apóstolo afirma com veemência que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, e descreve como a humanidade, apesar de conhecer a Deus, escolheu adorar a criatura em vez do Criador. Amanhã, 15 de outubro, porém, iremos diretamente ao capítulo 2, omitindo uma passagem crucial: Romanos 1:26-32, a saber, esta:
“Por essa razão, Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até as suas mulheres trocaram as relações naturais por relações contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de desejo uns pelos outros, cometendo atos vergonhosos homens com homens.”Recebendo em si mesmos a devida punição pelo seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam. Estão cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e malícia; cheios de inveja, homicídio, egoísmo, engano e malícia; são difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, infiéis, sem amor e impiedosos. Ora, embora conheçam o justo decreto de Deus, de que os que praticam tais coisas merecem a morte, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam.
Nestes versículos, São Paulo simplesmente descreve as consequências do que acabou de dizer. Ele fala de uma humanidade que, tendo rejeitado a verdade de Deus, se encontra perdida e presa de suas próprias paixões. As palavras são fortes, certamente: "Por isso Deus os entregou a paixões vergonhosas..." Paulo descreve a desordem moral que surge quando a verdade é substituída pela mentira, quando o bem é trocado pelo mal e o mal pelo bem. É um texto duro, mas verdadeiro. É o realismo das Escrituras, que não temem expor a miséria humana para revelar a misericórdia de Deus.
No entanto, essa mesma passagem é silenciada. Por quê? Pode-se pensar que seja uma escolha de discrição, por respeito àqueles que possam se sentir tocados ou julgados. Mas a Palavra de Deus não julga para condenar, mas sim para iluminar, para chamar à conversão. Se silenciamos o que é desconfortável, se apagamos o que perturba, não protegemos as pessoas: privamo-las da capacidade de se olharem no espelho, de reconhecerem suas próprias feridas e de orarem por cura.
Existe uma forma sutil de censura espiritual que, em nome do "politicamente correto", corre o risco de tornar a Palavra inofensiva, domesticada. Mas a Palavra não é apenas um bálsamo que consola: é também um fogo que purifica, uma espada que separa, uma verdade que desafia. Aqueles que proclamam o Evangelho não devem temer ofender, mas sim temer a infidelidade.
São Paulo não escreveu para condenar o homem, mas para lembrá-lo de que, sem Deus, tudo se corrompe; que a graça não pode ser compreendida sem antes reconhecer o pecado. Remover esses versículos significa remover um fragmento da verdade, e sem verdade não há salvação. Não se trata de defender um moralismo antigo, mas de preservar a Palavra em sua totalidade, sem concessões ou mutilações.
Talvez devêssemos voltar a ler tudo, até mesmo o que não gostamos, até mesmo o que nos incomoda. Só então a Palavra poderá voltar a ferir para curar, a perturbar para converter, a julgar para salvar. Cortar não faz bem à alma: a Palavra, para ser luz, precisa ser íntegra.
Fonte : https://blog.messainlatino.it/
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