Segundos antes de entrar em campo no clássico entre Real Madrid e Barcelona, em outubro de 2020, as câmeras captaram um gesto curioso e de fé de Luka Modrić, craque croata. Ele parou, olhou para as suas caneleiras e as beijou várias vezes.
Naquelas caneleiras de fibra de carbono, tão distantes das de madeira que ele usou na infância, quando a família não tinha dinheiro para comprar outras, estão impressas uma foto de sua família e uma imagem de Jesus Cristo. Um detalhe que diz muito sobre quem é Modrić também fora do gramado. Conheça essa história que mistura fé e futebol.
Da guerra à Bola de Ouro
A história de Modrić começa no avesso do brilho que o mundo conhece. Nascido em 1985, em Zadar, na Croácia, ele cresceu durante a Guerra dos Bálcãs, um dos conflitos mais violentos da Europa no século XX. O avô foi assassinado por um grupo de sérvios perto de casa e pai foi convocado pelo exército croata. Ele e a mãe fugiram da cidade e se abrigaram num hotel, onde o menino Luka continuou jogando bola pelos corredores, tanto que, anos depois, um ex-recepcionista brincaria que ele quebrava mais vidros com a bola do que as bombas da guerra.
Desse momento tão difícil nasceu um dos maiores jogadores da história. Em 2018, ganhou a Bola de Ouro, o prêmio mais importante do futebol mundial, e ao recebê-la falou: “Minha família é o que me dá forças para seguir cruzando fronteiras e colhendo frutos”.
A fé católica na Croácia
Para entender Modrić, é preciso entender o país que ele representa. A Croácia é uma das nações mais católicas da Europa: de acordo com o censo de 2011, representa 85,5% da população. Durante séculos de dominação por potências estrangeiras, a Igreja Católica foi o elemento que manteve coesa a consciência nacional croata, segundo diversos historiadores.
Essa fé se reflete também no futebol. A poucos dias da Copa do Mundo de 2026, a seleção croata participou de uma Santa Missa em frente à capela de São João de Deus em Ičići, na Croácia, com jogadores e membros da comissão técnica para a celebração da solenidade da Santíssima Trindade. O gesto foi espontâneo, sem anúncio prévio. Uma equipe que reza junta antes de competir, porque sabe que há algo maior do que qualquer resultado. Entre as principais presenças da seleção está Modrić, que aos 40 anos é capitão tanto da seleção nacional quanto do seu clube, o AC Milan, na Itália.
O gesto que o Brasil não esquece
Em 2022, no Catar, foi a Croácia quem eliminou o Brasil nas quartas de final. As seleções empataram em 1 a 1 ao fim da prorrogação e os croatas levaram a melhor nos pênaltis. A Croácia encerrou a Copa do Mundo de 2022 na terceira colocação, vencendo Marrocos por 2 a 1 na disputa pelo terceiro lugar.
O Brasil saiu do torneio com a dor da eliminação. Mas ficou uma imagem que muitos torcedores brasileiros guardam com respeito: após a partida, Modrić foi até o brasileiro Rodrygo, seu companheiro de Real Madrid, que havia perdido um dos pênaltis, e o consolou. Em suas palavras ao fim do jogo, o capitão croata foi generoso:
“Isto pode acontecer a qualquer um. Há que felicitar Rodrygo por este jogo e por tudo o que significa. Ter força e mentalidade para cobrar um pênalti é digno de elogio. Todos podem falhar e isso é o que lhe disse quando fui dar ânimo. Lembro que era pouco mais velho que ele quando falhei o meu pênalti.”
Compaixão pelo adversário, memória da própria fragilidade, reconhecimento da humanidade do outro. São gestos que a fé forma, mesmo que não sejam nomeados assim.
A fé como alicerce
Quando questionado sobre o que sustenta sua carreira e sua vida, Modrić costuma falar sobre família e fé. As caneleiras que beija antes dos jogos são o símbolo disso, pois carregam Cristo e os seus como lembrete diário do que é essencial.
O futebol coloca atletas diante de pressões extremas, como lesões, derrotas, expectativas, glórias passageiras. A fé, para muitos deles, é o que dá chão firme ao que fazem.
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