O rito da ordenação presbiteral é marcado por uma beleza singular e por uma profunda riqueza simbólica, cujas bases se encontram na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja.
Após a proclamação do Evangelho, acontece a apresentação e a chamada dos candidatos que serão admitidos ao segundo grau do sacramento da Ordem. Chamados pelo nome, eles se apresentam diante da Igreja respondendo: “Eis-me aqui!”. Trata-se de uma resposta simples, mas de extraordinária densidade espiritual, que evoca os grandes “eis-me aqui” da História da Salvação: o de Abraão, o de Moisés, o da Virgem Maria e o dos Apóstolos… e que exprime a oferta de toda a vida ao Senhor.
Na sequência da celebração, o bispo ordenante interroga o reitor do Seminário acerca da idoneidade dos candidatos. Após o testemunho apresentado, a assembleia responde: “Graças a Deus!”. Essa aclamação manifesta que a entrega expressa no “Eis-me aqui”, o testemunho da Igreja acerca da dignidade dos candidatos e sua eleição para o ministério presbiteral são, antes de tudo, obra da graça de Deus.
A homilia faz ressoar ainda mais essa entrega que brota da Palavra de Deus proclamada na assembleia. Em seguida, o bispo interroga os ordenandos com perguntas que sintetizam a essência do ministério presbiteral. A cada uma das perguntas, os eleitos respondem: “Quero”. Essa única palavra exprime o desejo de abraçar, por toda a vida, o compromisso de: servir ao povo de Deus como colaboradores da ordem episcopal; anunciar a Palavra e ensinar fielmente a doutrina da Igreja; celebrar os mistérios da fé, especialmente a Eucaristia e o sacramento da Reconciliação; cultivar uma vida de oração; e consagrar-se, unido a Cristo, para a salvação da humanidade. Nesse “Quero” manifesta-se, o propósito de configurar toda a existência a Cristo. Cada palavra, cada gesto e cada momento desse rito exprimem essa entrega total e devem ser vividos na consciência desse profundo propósito de comunhão com o Senhor.
A sequência ritual conduz, então, à prostração. Nela se condensam diversos significados: adoração, humildade, fragilidade, súplica e entrega total. Enquanto os eleitos permanecem prostrados, com o rosto por terra, entre o presbitério e a assembleia, toda a comunidade eclesial presente invoca a intercessão dos santos. A Igreja peregrina, reunida em oração, dirige sua súplica à Igreja celeste em favor daqueles que serão ordenados. Torna-se visível, assim, que o ministério presbiteral é dom recebido pela oração da Igreja e só pode ser plenamente vivido na comunhão eclesial.
O silêncio conduz o gesto da imposição das mãos, no qual o bispo ordenante, juntamente com todo o presbitério, impõe as mãos sobre cada ordenando. É na imposição das mãos e na prece de ordenação, envolvidas pelo silêncio orante da assembleia, que o ministério presbiteral é sacramentalmente conferido. Encontram-se aqui os elementos constitutivos desse rito, conservados pela Tradição desde os tempos apostólicos.
Na Sagrada Escritura, o gesto da imposição das mãos expressa a consagração, a transmissão de uma missão e o conferimento de um ministério. A prece de ordenação explicita, por meio das palavras, aquilo que o gesto sacramental realiza. Inspirada em uma antiquíssima tradição litúrgica, ela faz memória de Moisés e dos setenta anciãos, de Aarão e de seus filhos, bem como dos Apóstolos e dos colaboradores de Cristo, figuras bíblicas que evocam os ministérios do governo, do culto e do anúncio da Palavra. A invocação do Espírito Santo configura o novo presbítero a Cristo, a fim de que exerça, com fidelidade, a missão que lhe é confiada.
Os ritos explicativos da ordenação recebem esse nome porque tornam visíveis, por meio de sinais, os dons conferidos ao novo presbítero. Entre eles destacam-se a imposição da estola e da casula, a unção das mãos com o santo crisma e a entrega do pão e do vinho.
A estola manifesta a autoridade própria do ministério presbiteral, enquanto a casula, que a recobre, recorda que toda autoridade deve ser exercida na caridade. O sacerdote é chamado a revestir-se dos mesmos sentimentos de Cristo e a fazer de sua vida um testemunho do amor do Bom Pastor. Sem a beleza interior de uma existência configurada a Cristo, a beleza exterior dos paramentos litúrgicos corre o risco de reduzir-se à vaidade ou à ostentação, em contradição com a verdade do mistério cristão.
O óleo do santo crisma, presente em diversos ritos da Igreja, é sinal eficaz da ação do Espírito Santo. Pela unção das mãos, os novos presbíteros são consagrados para santificar o povo de Deus e chamados a difundir, por toda a vida, o bom perfume de Cristo.
A entrega do pão e do vinho manifesta a dimensão eclesial da oferta eucarística e constitui uma exortação para que os novos sacerdotes conformem toda a sua existência ao mistério da cruz do Senhor, oferecendo, juntamente com o sacrifício de Cristo, a própria vida em favor da Igreja.
Concluindo o rito, os novos presbíteros são acolhidos pelo bispo com o abraço da paz, acompanhado das palavras do Ressuscitado: “A paz esteja contigo”. Em seguida, os demais presbíteros presentes na celebração também os recebem no seio do presbitério. Essa acolhida manifesta que o ministério jamais é vivido de forma isolada, mas na comunhão sacramental e fraterna. A comunhão do presbitério deve tornar visível o sinal pascal na vida da Igreja: um espaço de esperança, onde a fraternidade sacerdotal sustenta a vivência da fé, da caridade e da missão, testemunhando a presença do Cristo Ressuscitado no meio de seu povo.
A riqueza teológica deste rito não se esgota na beleza de seus gestos e palavras. Essa riqueza constitui um convite dirigido a toda a comunidade eclesial, especialmente àqueles que recebem o dom do ministério presbiteral, para que aquilo que a Igreja celebra na liturgia se traduza em uma existência configurada a Cristo e colocada a serviço do povo de Deus.
Padre Fernando Lima Almeida
Presbítero da Arquidiocese de BH e Mestrando em Sagrada Liturgia
Fonte https://arquidiocesebh.org.br/
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