Leigo e Leiga: a vocação de cada batizado no coração da Igreja

 Vivemos este mês vocacional como um tempo de escuta profunda, um período em que a Igreja para, respira e se pergunta de onde vêm as vocações que a sustentam e para onde elas conduzem o povo de Deus. E é dentro deste horizonte que celebramos o dia de orações pelos serviços e ministérios do Leigo e da Leiga na Igreja, uma semana que merece muita atenção e orações.


Quando pensamos em vocação, quase sempre nossa mente vai direto ao sacerdócio ou à vida religiosa. É natural, e essas vocações são dons preciosos para a Igreja. Mas se pararmos diante do Evangelho deste domingo, o de Mateus 16,13-20, vamos perceber algo que costuma passar despercebido. Antes de ser apóstolo, antes de receber qualquer investidura, Simão Pedro é um pescador. Um homem do povo, com as mãos calejadas pelo trabalho, sem formação religiosa formal, sem lugar de destaque na sinagoga. É a esse homem simples que Jesus faz a pergunta mais importante de toda a Escritura: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

A primeira leitura deste domingo – Isaías 22,19-23 – fala de Eliacim, um administrador leigo do palácio, a quem Deus confia uma responsabilidade enorme: a chave da casa de Davi. O profeta descreve com clareza que essa chave será colocada sobre os ombros de Eliacim, e que ele se tornará, nas palavras da Escritura, “um pai para os habitantes de Jerusalém”. Não se trata de um sacerdote do templo, mas de um homem com função administrativa, alguém que hoje chamaríamos simplesmente de leigo. E Deus o escolhe para uma missão de cuidado com o povo.

Isso ilumina o que comemoramos nesta semana. O leigo e a leiga recebe, cada um à sua maneira, uma chave própria. A chave da família, a chave do ambiente de trabalho, a chave da escola, do hospital, da vida pública, dos espaços onde a Igreja muitas vezes não tem outra presença senão a deles.

O Concílio Ecumênico Vaticano II já havia recordado com força que todo batizado participa, à sua maneira, do sacerdócio, do profetismo e da realeza de Cristo. Isso significa que o leigo e a leiga não recebem sua missão como um favor da hierarquia, mas como fruto direto do batismo. É por serem batizados, que homens e mulheres leigos são chamados a evangelizar a partir de dentro das realidades mais concretas da vida.

Penso em nossa realidade aqui no Rio de Janeiro, cidade que o Cristo Redentor abraça do alto do Corcovado, uma cidade de contrastes profundos, de fé popular intensa e de desafios sociais que exigem presença cristã em todos os ambientes. Quem leva o Evangelho para dentro de uma empresa, de um hospital, de uma sala de aula, da política, de uma comunidade carente, na grande maioria das vezes, é o leigo e a leiga. Não porque o padre não possa estar lá, mas porque é o leigo quem vive ali todos os dias, quem conhece as dores e as alegrias daquele lugar por dentro.

Quando Pedro responde “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”, Jesus lhe diz algo fundamental: “não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17). Essa frase vale para Pedro, mas vale também para cada leigo e leiga que hoje, em silêncio, confessa sua fé com gestos simples, um cuidado, uma palavra de consolo, uma decisão ética tomada em ambiente hostil. Essa confissão de fé não depende de vestes litúrgicas nem de posição eclesiástica. Ela nasce do coração tocado pela graça.

A segunda leitura deste domingo, – Carta aos Romanos 11,33-36 – nos lembra que os caminhos de Deus são insondáveis e que tudo vem dele, é por ele e para ele. Isso deveria nos libertar de qualquer tentação de hierarquizar vocações como se algumas fossem mais valiosas que outras diante de Deus. O que importa não é o lugar que ocupamos na estrutura visível da Igreja, mas a fidelidade com que respondemos ao chamado recebido.

Celebrar a semana da vocação aos serviços e ministérios na igreja, ou seja, a vocação do Leigo e da Leiga dentro deste mês vocacional é, portanto, uma oportunidade preciosa. É momento de agradecer a Deus por tantos homens e mulheres que sustentam catequeses, pastorais, movimentos, obras sociais e comunidades inteiras, muitas vezes sem reconhecimento público, quase sempre com grande generosidade. E é também momento de renovar o envio. Como recorda meu lema episcopal, inspirado em João 17,21, “Ut omnes unum sint”, para que todos sejam um, a unidade da Igreja não se constrói apenas no santuário, mas se estende a cada esquina da cidade onde um leigo, com humildade, carrega sua parte da chave.

Que cada leigo e cada leiga que lerem estas palavras a olhar para esta semana com novos olhos. O cuidado que vocês têm com os filhos, a honestidade no trabalho, a paciência com um colega difícil, a disposição para servir na paróquia, tudo isso é resposta ao mesmo chamado que Jesus fez a Pedro. “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta de vocês, dada na vida cotidiana, também constrói a Igreja.

Que o Senhor, que não deixa inacabada a obra de suas mãos, como recorda o salmista no Salmo 137(138),8bc, continue confirmando cada leigo e leiga em sua missão. E que Nossa Senhora, discípula fiel entre os discípulos, nos ensine a viver com simplicidade e alegria a vocação que recebemos no batismo.

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Fonte CNBB

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