O papa Leão XIV começou a redigir a encíclica Magnifica humanitas (Magnífica Humanidade) em julho do ano passado, em suas férias em Castel Gandolfo, Itália.
O documento, assinado em 15 de maio — data escolhida deliberadamente para coincidir com a da encíclica Rerum novarum, com a qual Leão XIII inaugurou a doutrina social da Igreja — é um texto magisterial solene. Além disso, por ser a primeira encíclica do pontificado de Leão XIV, é tomada, seguindo uma tradição, como programa doutrinal do papa americano.
Um dos aspectos mais significativos desses documentos é a variedade de fontes de inspiração que o papa usa, que vão além da esfera estritamente eclesial. Essa variedade abrange não só citações de grandes teólogos, Padres da Igreja e papas, mas também referências a tradições e disciplinas externas à Igreja.
Leão XIV cita, por exemplo, Viktor Frankl, médico e sobrevivente de campos de extermínio nazistas, como Auschwitz, na Polônia, entre 1942 e 1945. Dessa experiência extrema — marcada pela destruição total do entorno e pelo extermínio dos entes queridos do autor— surgiu a obra Em Busca de Sentido, na qual ele diz que, apesar do sofrimento, a vida ainda vale a pena ser vivida.
O papa fala também sobre o “valor quase profético” de várias manifestações culturais: a Nona Sinfonia de Beethoven, que ele diz ser um “desejo de unidade”; a pintura Guernica, de Pablo Picasso, como “denúncia da desumanização”; e o filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, “convite a não deixar cair o passado no esquecimento”.
Na encíclica, o papa fala sobre os riscos que a vida democrática enfrenta num contexto em que "a questão sobre o verdadeiro perde interesse", dando lugar a um pragmatismo que se contenta com "o que parece útil ou eficaz".
Para ilustrar as consequências desse desrespeito pela verdade, que — segundo o papa — "leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo", ele recorre à filósofa e ensaísta política alemã Hannah Arendt. Em As Origens do Totalitarismo (1951), Arendt, judia que se refugiou nos EUA, diz que os sujeitos ideais desses regimes não são necessariamente os ideologicamente convictos, mas sim “aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência), nem a diferença entre verdadeiro e falso (que constituem os critérios do pensamento)”, como se pode ler em Magnifica humanitas.
Leão XIV também cita o escritor católico do século XX, J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis. Através de um dos personagens, ele fala sobre a responsabilidade moral de cada geração. “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar”, escreve o papa na encíclica.
Junto com essas referências, Leão XIV evoca o movimento pelos direitos civis nos EUA, ligado à liderança de Martin Luther King Jr., e o fim do apartheid na África do Sul depois da libertação de Nelson Mandela e a decisão de Mandela de “não entregar ao ódio o futuro", como citado pelo papa.
O texto fala também sobre o testemunho de mulheres “corajosas e generosas”, como santa Laura Montoya, santa Teresa de Calcutá, Dorothy Day e Elisabeth Elliot (1926–2015), influente missionária, escritora e palestrante cristã americana.
Ao lado dessas mulheres, o papa cita figuras proeminentes em vários campos do conhecimento e da ação social, não necessariamente católicas: Marie Curie (1867-1934), pioneira no estudo da radioatividade e a primeira pessoa a receber dois Prêmios Nobel em disciplinas diferentes (Física e Química); Maria Montessori, médica, educadora e filósofa italiana que revolucionou a educação ao colocar a criança no centro do aprendizado; e Wangari Maathai (1940-2011), ativista queniana, fundadora do Movimento Cinturão Verde e a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2004, por contribuições para o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz.
Leão XIV cita também Benazir Bhutto (1953–2007), líder política paquistanesa e a primeira mulher eleita para governar um país de maioria muçulmana, tendo sido primeira-ministra duas vezes (1988–1990 e 1993–1996).
Todas elas, junto com tantas outras mulheres de diferentes continentes, diz Leão XIV, contribuíram com esforços para "tornar a história mais humana".
Na seção sobre educação, o papa cita a sétima carta do filósofo grego Platão — de 353 a.C. — no qual, ao narrar uma estadia em Siracusa sob os tiranos Dionísio, o Velho, e Dionísio, o Jovem, ele fala sobre parte de sua doutrina política e ética.
Por fim, a encíclica fala sobre o valor das comunidades religiosas que escolhem viver em lugares pobres e perigosos. O papa as chama de “mártires da fraternidade e da justiça”, como são Maximiliano Kolbe, são Óscar Romero e o beato Enrique Angelelli; e outras testemunhas que, em condições duras e muitas vezes desumanas, encarnaram a esperança do Evangelho e a dignidade da humanidade, como o venerável François-Xavier Nguyễn Văn Thuân.
Fonte ACI Digital
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