Misericórdia em Ação: Quinto dia do 6º Congresso Apostólico Mundial sobre a Misericórdia em Vilnius

 O quinto dia do 6º Congresso Apostólico Mundial da Misericórdia, em Vilnius, teve como foco um tema simples, porém exigente: Ação. Os participantes foram convidados não apenas a refletir sobre a misericórdia como um conceito espiritual, mas também a explorar como ela pode ser vivenciada de forma concreta: na vida pessoal, nas comunidades paroquiais, no serviço social, no sistema judiciário, no trabalho humanitário e na defesa da dignidade humana.


Ao longo do dia, palestrantes de origens notavelmente diversas transmitiram uma mensagem comum: a misericórdia não é meramente uma emoção ou uma ideia. Ela se torna real apenas quando assume uma forma visível no serviço ao próximo.

Entre os oradores estavam o Arcebispo Rino Fisichella, Tetiana Stawnychy, David e Catherine Mackie, o Padre James Mallon e Kevin Hyland.

Misericórdia: O Verdadeiro Nome da Onipotência de Deus

O Arcebispo Rino Fisichella, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização e um dos principais teólogos da Igreja, convidou os participantes a redescobrirem a misericórdia como o próprio coração da fé cristã.

Citando São João Paulo II, ele lembrou à plateia que a misericórdia não é simplesmente um atributo de Deus entre muitos, mas a expressão mais plena do poder de Deus:

“O Senhor nos redime da dor infundindo esperança. Ele converte nossos corações endurecidos, transformando o poder em serviço, revelando o verdadeiro nome de Sua onipotência: misericórdia. É a misericórdia que salva o mundo.”

O arcebispo enfatizou que a Igreja hoje é chamada a ser “um sinal e instrumento da misericórdia do Pai”, particularmente em um mundo marcado por conflitos, incertezas e profundas mudanças culturais.

Ao chamar a atenção para a liturgia, ele observou que a misericórdia permeia todas as celebrações da Igreja, aparecendo repetidamente nas orações e na vida sacramental. "A misericórdia está longe de ser um mero sentimento", disse ele. "Ela é a espinha dorsal da oração litúrgica."


Na segunda parte de seu discurso, o Arcebispo Fisichella concentrou-se na misericórdia no dia a dia. Fazendo eco ao Papa Francisco, ele recordou o desafio frequentemente repetido pelo Santo Padre:

“Onde quer que haja cristãos, todos devem encontrar um oásis de misericórdia.”

A misericórdia, argumentou ele, não se trata de compartilhar o que resta da abundância, mas de compartilhar a si mesmo e entrar na fraqueza do outro. "Misericórdia não é uma palavra abstrata", disse ele. "É um ato, uma ação, um sinal concreto que muda profundamente a vida das pessoas e os relacionamentos."

Testemunha da Ucrânia: A solidariedade nos ajuda a permanecer humanos.

Tetiana Stawnychy, presidente da Caritas Ucrânia, ofereceu um poderoso testemunho de uma nação que vive em meio à guerra.

Ao refletir sobre uma conversa que teve pouco antes da invasão em grande escala da Rússia em 2022, ela lembrou como o Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk falou não sobre verdades políticas, mas sobre a verdade mais profunda da pessoa humana.

“Fomos criados à imagem de Deus”, disse ela. “No âmago do nosso ser, fomos criados para a comunhão. E nos encontramos da melhor forma quando nos tornamos um presente para o outro.”

Essa convicção tornou-se uma tábua de salvação durante a guerra.

Stawnychy explicou que, embora a ajuda humanitária continue sendo essencial, alguns dos momentos mais importantes acontecem simplesmente por meio do encontro humano. Os trabalhadores da Caritas descobriram que a primeira oportunidade para as pessoas deslocadas contarem suas histórias muitas vezes se tornava o início da cura.


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“Esse primeiro momento em que você consegue compartilhar sua história com alguém que está ouvindo do outro lado”, disse ela, “é o primeiro momento de profunda cura”.

Ela também descreveu como aqueles que recebem assistência frequentemente se tornam voluntários. Em 2022, quase 40% dos voluntários da Caritas na Ucrânia eram pessoas deslocadas internamente.

Uma dessas voluntárias foi Oksana, que foi deslocada duas vezes: primeiro de Donetsk em 2014 e depois de Mariupol após a invasão em grande escala. Refletindo sobre sua experiência, Oksana compartilhou:

“Cada vez que eu estendia a mão e tinha a oportunidade de ajudar outra pessoa, era como se um pedaço do meu coração estivesse sendo costurado de volta.”

Stawnychy agradeceu à comunidade internacional pelo apoio e destacou que a resiliência da Ucrânia foi sustentada não apenas pela graça de Deus, mas também pela solidariedade global.

“A guerra não é apenas uma crise política ou militar”, disse ela. “É uma crise espiritual.”

Resumindo a experiência da Ucrânia, ela acrescentou:

“Nossa solidariedade com vocês, nosso desejo de estender a mão, de criar comunhão, criar espaço, criar relacionamento, é o que nos mantém ancorados. Descobrimos que, para nós, essa nossa condição de humanos é como uma jangada salva-vidas no oceano.”

Misericórdia dentro do sistema de justiça

David e Catherine Mackie, juízes com longa trajetória na Escócia, exploraram como a clemência pode transformar o sistema de justiça criminal.

David Mackie explicou que muitos infratores vêm de contextos marcados por pobreza, abuso, dependência química, desestruturação familiar e experiências adversas na infância. Ao longo dos anos, ele percebeu que muitas pessoas que compareciam perante o tribunal não precisavam, primordialmente, de punição.

“Era um anátema que, em muitos casos, o que a pessoa que eu estava sentenciando precisava era de ajuda e apoio, e não de uma pena de prisão.”


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Com base em pesquisas e experiência judicial, ele argumentou que as penas alternativas à prisão costumam produzir melhores resultados do que penas curtas de prisão, que frequentemente aumentam a probabilidade de reincidência.

Para Mackie, o sucesso da justiça restaurativa depende, acima de tudo, de relações construídas sobre a confiança. Ele enfatizou que os juízes podem ajudar a fomentar a esperança e a dignidade humana ao se engajarem com os infratores não apenas como casos, mas como pessoas.

“Todo indivíduo, independentemente do seu passado, possui uma dignidade humana inerente e um valor intrínseco.”

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Sua esposa, Catherine Mackie, ilustrou esses princípios por meio de exemplos da vida real, incluindo a história de Alba, uma jovem cuja vida foi destruída por perdas, abusos, vícios e traumas.

Em vez de prisão, Alba recebeu uma pena alternativa intensiva, combinada com apoio constante e acompanhamento judicial regular. Com o tempo, ela reconstruiu sua vida, voltou a trabalhar, conseguiu moradia e recuperou a confiança.

Em um de seus últimos encontros, Alba fez uma observação surpreendente:

“As únicas pessoas que ela sentiu que a ouviram foram um policial que lidava com o perseguidor, sua assistente social supervisora ​​e o tribunal.”

Para os Mackies, a misericórdia dentro do sistema de justiça não é fraqueza. É confiança na capacidade humana de mudança e redenção.

Uma paróquia que reflete o coração do Pai.

O padre James Mallon, fundador da Divine Renovation, falou sobre a renovação paroquial e a necessidade de as igrejas se tornarem sinais vivos da misericórdia de Deus.

Ele desafiou os participantes a refletirem sobre uma questão fundamental: a renovação paroquial tem a ver com o que queremos das pessoas ou com o que queremos para as pessoas?

“Tem suas raízes no amor”, disse ele. “Queremos que as pessoas experimentem a misericórdia de Deus não por causa do que podemos receber delas, mas pelo que desejamos para elas.”


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Utilizando a parábola do Filho Pródigo, o Padre Mallon delineou dez características do Pai misericordioso que devem moldar a cultura paroquial.

O Pai, explicou ele, é voltado para o exterior, vigilante, compassivo, ativo, misericordioso, generoso, urgente e alegre. E, acima de tudo, celebra o retorno daqueles que estavam perdidos.

“O Pai vai ao encontro do Filho”, disse Mallon. “Somos chamados a ser paróquias que saem, ativamente.”

Ele enfatizou que a renovação paroquial não se resume a programas ou estratégias.

“O mais importante é transformar a cultura.”

Ele argumentou que culturas paroquiais saudáveis ​​celebram histórias de conversão e transformação. As comunidades se tornam aquilo que celebram.

Concluindo com o testemunho de uma paroquiana chamada Jen, que redescobriu a fé após anos afastada da Igreja, Mallon destacou uma verdade simples, porém profunda:

"Eu sei que Deus me ama, embora tenha sido muito difícil aceitar isso."

Segundo Mallon, cada paróquia deveria se tornar um lugar onde as pessoas encontrem esse mesmo amor misericordioso.

Combater o tráfico de seres humanos como uma defesa da dignidade humana.

Kevin Hyland, um dos principais defensores mundiais da luta contra o tráfico de seres humanos e a escravidão moderna, fez uma apresentação impactante sobre a dimensão da exploração no mundo atual.

Baseando-se em décadas de experiência, ele descreveu o tráfico de seres humanos como um profundo ataque à dignidade humana e um dos maiores desafios aos direitos humanos da nossa época.



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Citando os ensinamentos da Igreja, Hyland enfatizou que a indiferença permite que a exploração floresça. Recordando as advertências do Papa Francisco sobre a “cultura da indiferença”, ele exortou os participantes a rejeitarem a passividade e a responderem com compaixão e ação.

“A indiferença deve dar lugar à compaixão, à justiça, à paz e a um renovado compromisso de defender a dignidade de cada pessoa humana.”

Ele destacou como o tráfico de pessoas permanece oculto em muitos setores da vida moderna e lembrou aos participantes que a proteção da dignidade humana exige ouvir as vítimas, apoiar os sobreviventes e combater os sistemas que permitem a exploração.

Reunindo os ensinamentos de vários papas, Hyland enfatizou que a luta contra o tráfico de seres humanos é, em última análise, uma luta pela dignidade humana, pela liberdade e pela paz.

Misericórdia que transforma vidas

O quinto dia do Congresso ofereceu um lembrete convincente de que a misericórdia nunca é meramente teórica.

Seja expressa por meio de ajuda humanitária na Ucrânia, justiça restaurativa na Escócia, renovação paroquial ou defesa das vítimas do tráfico humano, a misericórdia torna-se visível quando assume forma concreta no serviço ao próximo.

Como lembrou o Arcebispo Fisichella aos participantes no início do dia, a misericórdia não é simplesmente um aspecto da vida cristã: é “o verdadeiro nome da onipotência de Deus”.

E, como ensinou São João Paulo II, continua sendo a força que, em última análise, “salva o mundo”.

Fonte https://wacomvilnius.org/news/

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