PT publica carta a católicos, critica transformar ‘igrejas em palanques’ e celebra raízes na Teologia da Libertação
O Partido dos Trabalhadores (PT) publicou ontem (1) uma carta voltada aos católicos, em que defende a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e critica “condutas parlamentares que transformam igrejas em palanques”. O documento foi lançado depois que o partido realizou o 1º Encontro Nacional de Católicas e Católicos do PT, na terça-feira (30), e semanas após um evento feito com evangélicos e uma carta também voltada a eles.
Encontro de católicos do PT
“Nenhum partido dialoga mais com o Evangelho do que o PT quando coloca a vida, a dignidade humana e a justiça social no centro das suas ações”, disse na abertura do encontro de terça-feira o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Ele falou de sua trajetória nas pastorais da Igreja e defendeu que as políticas públicas do partido têm base nos valores evangélicos. “Nós defendemos a família quando defendemos o Bolsa Família, quando combatemos o feminicídio, quando garantimos a permanência dos jovens na escola e quando enfrentamos o crime organizado”, disse.
Organizado pelo Setorial Inter-religioso Nacional do PT e Escola Nacional de Formação do PT (ENFPT), o encontro simbolizou “o reencontro organizado de uma história que acompanha o partido desde sua fundação, há 46 anos”, diz o site do partido.
“O PT nasceu profundamente conectado às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), à Teologia da Libertação, às pastorais sociais, às organizações populares e a milhares de cristãos e cristãs que fizeram da fé um compromisso concreto com a justiça social, a democracia e a defesa da dignidade humana”, diz o site.
Ressalta ainda que “a presença de católicas e católicos foi decisiva na construção do partido e das principais lutas democráticas do país”, citando os militantes “da Pastoral Operária, da Comissão Pastoral da Terra, das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais e de inúmeros movimentos e organismos da Igreja Católica” que “ajudaram a construir o sindicalismo, os movimentos populares, as organizações comunitárias e o próprio projeto político que deu origem ao PT”.
Esse histórico foi lembrado no encontro pela primeira-dama do Brasil, Rosângela Lula da Silva, a Janja. Em mensagem por vídeo, ela falou que a formação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a fundação do PT estão profundamente ligadas às CEBs, à Doutrina Social da Igreja e às lutas populares. “Esses são também os valores que guiam o nosso governo e o nosso trabalho incansável para que o Brasil seja definitivamente um país livre da fome, da pobreza e da desigualdade”, disse, segundo site do PT.
O coordenador do Setorial Inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, defendeu “a importância de fortalecer o diálogo com diferentes segmentos religiosos, como estratégia permanente do partido para combater a desinformação e reafirmar sua histórica relação com as comunidades de fé”, diz o site do partido. Ele destacou que “86% dos filiados do PT são cristãos”, evangélicos ou católicos.
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Mesas redondas com presença de membros da Igreja
O encontro dos católicos do PT teve participação online e presencial, na sede nacional do partido, em Brasília (DF). Segundo programação divulgada pelo partido, houve quatro mesas temáticas: a primeira mesa sobre o protagonismo das mulheres e das juventudes na Igreja, na política e na reconstrução democrática do Brasil; segunda, sobre os desafios da comunicação, da fé pública e da disputa de sentidos no campo religioso; a terceira, sobre organização do laicato, das redes de articulação e da incidência democrática; e a quarta, sobre projeto popular para 2026, discutindo justiça social, justiça racial e ecologia integral.
Entre os nomes listados para participação nas mesas redondas estavam: o bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), dom Vicente de Paula Ferreira; o dominicano frei Betto, militante dos movimentos pastorais e sociais ligado ao PT, que foi assessor especial do presidente Lula, de 2003 a 2006; o franciscano frei David Santos, fundador da ONG Educafro; Ivone Gebara, religiosa da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, que se assume como feminista e defende iniciativas como a descriminalização do aborto; o membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), Daniel Seidel; o monge beneditino, Marcelo Barros, adepto da Teologia da Libertação; Sônia Gomes, secretária-executiva da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), que foi presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) e uma das delegadas sinodais no Sínodo da Sinodalidade.
Carta ao povo brasileiro
A ‘Carta das Católicas e dos Católicos do PT ao povo brasileiro’, publicada depois do encontro, começa com uma citação do evangelho de são João 10,10, “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”. O texto, porém, não aborda temas caros aos católicos como o aborto e a “defesa da vida desde a concepção até a morte natural”, como diz a mensagem dos bispos do Regional Leste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre as eleições 2026.
No encontro de terça-feira, o coordenador nacional do setor inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, disse a jornalistas que o debate sobre o aborto “está muito superado dentro do PT” e, por isso, não está nem sendo tratado no partido. “E não é porque estamos ocultando nada, todos os temas precisam ser dialogados e conversados, numa sociedade democrática você ouve quem é a favor e quem é contra”.
Segundo Barbosa, o tema do aborto “não aparece em nenhuma discussão”, nem nas “plenárias de mulheres, das comunidades LGBT, da juventude”.
“Está superado porque nós estamos preocupados com o nosso país, tem muita coisa para gente cuidar, nós pegamos um país destroçado. Vamos falar da vida? Vamos fazer um debate coerente com a sociedade: quem foi que defendeu a vida no período da pandemia? Nós defendemos a vacina, eles mataram 700 mil. Defender a vida é defender a vida plena, não é defender um tema. É defender a vida na sua plenitude”, acrescentou.
Posicionamento político
A carta é assinada por “Católicas e Católicos do Partido dos Trabalhadores”, que dizem querer “fortalecer o laicato, formar consciência crítica, ampliar redes de engajamento e valorizar o protagonismo das mulheres, das juventudes e da classe trabalhadora”.
Eles defendem “o Estado laico, a liberdade religiosa e o respeito às diferentes tradições e à não crença, rejeitando toda forma de intolerância, discriminação e racismo religioso”.
O texto denuncia “condutas parlamentares que transformam igrejas em palanques e que traem o mandato recebido do povo ao se colocarem contra direitos sociais, trabalhistas e democráticos”, ao mesmo tempo em que apoia “candidaturas populares comprometidas com a soberania nacional e com a dignidade da classe trabalhadora e das populações vulnerabilizadas”.
Os católicos do PT citam programas sociais implementados pela gestão do partido, como Bolsa Família, criado pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, Minha Casa Minha Vida, Pé-de-Meia, Farmácia Popular, como “avanços das políticas públicas que reconstruíram o Brasil e melhoraram concretamente a vida da população”. Além disso, apoiam o “fim da escala 6x1” e a “tarifa zero” para transportes públicos, “por expressarem o compromisso com o tempo digno, a mobilidade e os direitos sociais”.
“Para defender e ampliar essas conquistas, apoiamos nas eleições de 2026 um projeto comprometido com a igualdade, a dignidade e o cuidado com a Casa Comum”, diz a carta, ao listar em seguida: “trabalho com direitos, reforma agrária, agricultura familiar, segurança alimentar, proteção ambiental, igualdade racial, cuidado com as mulheres, proteção das juventudes e defesa dos povos que cuidam da terra, das águas, das florestas e da vida”.
Os católicos do PT também defendem “uma prática política orientada pela legalidade do Estado Democrático de Direito e pelo respeito às instituições” e dizem que “o voto deve ser fruto de um olhar atento à trajetória pública das candidaturas, aos compromissos que assumem e aos impactos reais de seus projetos sobre a vida do povo brasileiro”.
A carta se encerra com uma declaração de apoio à “reeleição do presidente Lula: para seguir reconstruindo o Brasil com democracia, trabalho valorizado, direitos garantidos e vida digna para todas e todos”.
Fonte : https://www.acidigital.com/
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