“Mexeu com Satanás”: quando o jovem transforma o mal em protagonista da própria fé

Assistindo vídeos que apareceram no feed das redes sociais durante os atos políticos realizados no Rio de Janeiro e Niteroi, os jovens entoaram diversos gritos de guerra e palavras de ordem voltados á disputa eleitoral que toma conta de nossa sociedade.  Os principais cânticos ouvidos foram vários mais um me chamou atenção 'mexeu com estudantes, mexeu com satanás" mais do que uma simples rima de manifestação, a frase carrega um simbolismo que merece ser questionado, especialmente a partir de uma perspectiva para um Jovem Católico


Imagem gerada por IA

Primeiro,  o jovem tem todo o direito de participar das discussões sociais, defender suas convicções e ocupar as ruas em defesa daquilo que considera justo. A questão que trago nessa reflexão é quanto os dizeres interfere na nossa espiritualidade . “O que você quer dizer com isso? O que aconteceu? Por que você acredita que é o Satanás?” A partir daí, distinguir fé de superstição, prudência de medo e discernimento católico.

Entre os jovens, é relativamente comum ouvir expressões que Muitas vezes, essas frases aparecem de maneira espontânea, como brincadeira, exagero ou tentativa de explicar situações difíceis. Porém, quando essa linguagem passa a fazer parte da maneira como o jovem interpreta sua própria vida, ela merece uma reflexão mais profunda.

A Igreja Católica reconhece a existência do mal e a realidade da tentação. Entretanto, o cristianismo não coloca Satanás no centro da vida espiritual. O centro é Cristo. O cristão não é chamado a viver obcecado pelo demônio, mas a permanecer unido a Jesus.

Para um católico que comunga a Eucaristia e tem a vida como objetivo de busca pela santidade da sua alma invocar o Satanás em seus lábios e o convidando para sua vida seja como símbolo, referência ou aliado simbólico de uma luta não é uma escolha espiritualmente neutra. Repito, A fé católica reconhece a existência do mal, mas ensina o fiel a renunciá-lo, e não a invocá-lo ou glorificá-lo. Quando a figura de Satanás é trazida para a linguagem cotidiana como expressão de força, resistência ou poder, corre-se o risco de banalizar aquilo que a própria fé apresenta como realidade a ser combatida. O problema não está apenas nas palavras, mas no significado que elas podem adquirir: aquilo que o cristão é chamado a rejeitar não deveria ser transformado em símbolo de sua identidade ou de sua luta. Para o católico, a força diante das injustiças deve encontrar sua referência em Cristo, na verdade, na justiça e no amor ao próximo, e não na imagem daquele que representa a oposição a Deus.

“Dizer que ‘mexeu com Satanás’ como símbolo de força pode parecer apenas um grito de guerra, mas, para a fé cristã, o mal não deve ser invocado nem transformado em aliado: quem escolhe Satanás como símbolo de sua luta corre o risco de se colocar ao lado daquilo que deveria combater.”

Quando um jovem afirma “mexeu com Satanás”, talvez seja necessário perguntar também : por que Satanás está ocupando tanto espaço no modo como essa pessoa compreende sua própria história? Por que estou proclamando essas palavras ? Será que toda tentação significa que o jovem “mexeu” com alguma força espiritual? Ou existem também escolhas pessoais, consequências naturais, conflitos familiares, dificuldades emocionais e situações sociais e econômicas numa manifestação que precisam ser compreendidas com maturidade?

A expressão pode parecer simples, mas pode produzir uma espiritualidade baseada no medo. 

Talvez, diante desse cenário, fosse mais coerente que o grito de guerra dissesse “Mexeu com os estudantes, mexeu com Deus”. Não como uma tentativa de colocar Deus a serviço de uma disputa política, mas como expressão de que a defesa da dignidade humana, da justiça e dos mais vulneráveis pode encontrar fundamento na fé e forma de testemunhar sua verdadeira  fé aos cantos do país . Para um jovem cristão, sua força não precisa estar associada ao mal ou à figura de Satanás; pode estar na certeza de que Deus é fonte de justiça, esperança e verdade. 

A perspectiva católica oferece outro caminho. A vida cristã realmente envolve uma luta contra o pecado e contra tudo aquilo que nos afasta de Deus. Mas essa luta não significa viver procurando ou se declarando como demônios em todos os acontecimentos. Significa discernir, vigiar, rezar, escolher o bem e confiar na graça de Deus.

São Paulo escreve: “Revesti-vos da armadura de Deus, para poderdes resistir às ciladas do diabo” (Ef 6,11). O apóstolo não apresenta o cristão como alguém aterrorizado pelo mal, mas como alguém que permanece firme em Deus.

Por isso, talvez seja necessário também substituir a pergunta por uma pergunta muito mais cristã: “Estou permanecendo com Cristo diante dessa situação?”

Essa mudança parece pequena, mas é profunda. Na primeira pergunta, Satanás se torna o protagonista. Na segunda, Cristo volta a ocupar o centro.

A fé não elimina automaticamente todos os problemas. Ela oferece um modo diferente de atravessá-los.

O demônio não deve ocupar o centro da espiritualidade de um jovem, nem ser utilizado como fundamento de uma ideologia política. Para o cristão, o verdadeiro centro é Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que nos chama à conversão, à santidade, à verdade, à liberdade e à esperança. A fé católica nos ensina que não devemos viver dominados nem proclamar o mal, mas firmados na graça de Deus, confiando na misericórdia do Pai e buscando, com o auxílio do Espírito Santo, viver segundo o Evangelho. Por isso, uma fé verdadeiramente madura coloca o coração em Deus, permanece unido a Cristo e encontra no que a  Igreja oferece nos sacramentos e na oração o caminho para uma vida plena e orientada para a salvação.

Que em nossos lábios proclamemos que somente Jesus é o Senhor ! 


Por André Ribeiro 


Fontes 

  1. Catecismo da Igreja Católica, nn. 391-395 
  2.  Bíblia Sagrada 1Pedro 5,8-9 Efésios 6,10-18

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