“Se alguém verdadeiramente cometeu ilícito, se alguém se envolveu com corrupção, é preciso que sofra as consequências da lei. Ninguém deve estar acima da lei na vida de um país,” disse o arcebispo de Brasília, cardeal Paulo Cezar Costa, ontem (2), sobre as denúncias envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O cardeal respondia uma pergunta feita a ele no programa especial Igreja e Política — Diálogo dos Cardeais do Brasil, exibido pela TV Rede Vida, com os oito cardeais do Brasil.
Além do cardeal Paulo Cezar, participaram do programa o arcebispo de São Paulo (SP), cardeal Odilo Pedro Scherer; o arcebispo do Rio de Janeiro (RJ), cardeal Orani João Tempesta; o arcebispo de Salvador (BA), cardeal Sergio da Rocha; o arcebispo de Porto Alegre (RS) cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); o arcebispo emérito de Brasília, cardeal João Braz de Aviz; e o arcebispo emérito de Aparecida (SP), cardeal Raymundo Damasceno Assis. O arcebispo de Manaus (AM), cardeal Leonardo Ulrich Steiner, está em Roma, mas enviou um vídeo pré-gravado.
“A corrupção não pode estar presente em nenhum dos Poderes da República”, disse dom Paulo Cezar, agora que as denúncias atingem um dos membros da mais alta corte de justiça do país. “A corrupção é sempre uma deturpação do bem comum”, pois “coloca o bem pessoal no lugar do bem comum”.
Segundo o cardeal, “a população não pode perder a crença na democracia, não pode perder a crença do bem” porque “o ser humano foi criado para o bem” e “ter sempre o ideal alto”.
“O ideal alto é a política enquanto bem comum e combater as anomalias”, disse. “A corrupção é uma dessas grandes anomalias".
Corrupção e escolha dos candidatos
Ao tratar da participação dos católicos na política, o arcebispo de Porto Alegre, cardeal Jaime Spengler, disse que os batizados não podem permanecer indiferentes diante de problemas como corrupção, abuso de poder, desigualdade, compra de votos e desinformação.
“Como batizados, nós temos como vocação primordial ser sal da terra, luz do mundo, fermento de transformação, fermento de transformação para um mundo melhor”, disse o cardeal Spengler. “Precisamos sim, nos sentir tocados pela pelo engajamento político”
Ele também destacou que “um batizado, uma batizada, um seguidor, uma seguidora de Jesus Cristo não pode ficar indiferente diante da desigualdade social”.
Dom Jaime também criticou a compra de votos e a disseminação de notícias falsas.
“O que dizer da compra de votos, que infelizmente em alguns lugares do interior ainda é uma realidade. O batizado não pode se deixar levar por esta situação”, disse o arcebispo. “E o que dizer de uma coisa que está muito presente hoje entre nós nas redes sociais, a disseminação de mentiras, de fake news que destrói às vezes a dignidade, a honra das pessoas e de uma forma assim, gritante”.
Ele acrescentou que “diante da questão do princípio da lei, da ficha limpa, nós não podemos ignorar a necessidade de avaliar a dignidade, a honra também de quem se dispõe ao serviço público”
O arcebispo emérito de Aparecida (SP), cardeal Raymundo Damasceno, recomendou que o eleitor conheça a trajetória dos candidatos antes de votar.
Para ele, o eleitor deve evitar “qualquer candidato que tenha alguma denúncia de corrupção na justiça, já antes de eleger.”
O eleitor “deve ver isso: Quem está com alguma denúncia de corrupção” ou “algum candidato que realmente no seu passado é marcado pela corrupção, pela malversação dos recursos públicos, evidentemente que não deve votar neste candidato. Creio que isso é fundamental, o nosso testemunho realmente do político na sociedade", pontuou.
Democracia exige instituições que funcionem
A defesa do funcionamento das instituições democráticas apareceu também nas falas do arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Pedro Scherer. Para ele, a democracia precisa ser preservada e aperfeiçoada com a participação dos cidadãos.
“A democracia é um organismo vivo, por isso ela pode evoluir para mal ou para bem. Por isso, se requer vigilância para que a democracia não evolua para pior, mas pelo contrário que se mantenha bem e evolua para melhor. Ela sempre pode melhorar”, disse.
Dom Odilo destacou a importância da separação e da autonomia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. “Os três poderes devem ter autonomia para funcionarem. Isso não significa que não devem dialogar, é claro que sim. Porém, um não deve estar sujeito ao outro, nem deve estar se sobrepondo ao outro”.
O cardeal também ressaltou a responsabilidade da sociedade no acompanhamento dos poderes e mencionou o papel da imprensa livre.
“A sociedade faça o controle dos poderes. E ali é importante as organizações de base da vida social, a imprensa livre, as instituições da sociedade. Todas podem e devem contribuir para manter sadia a democracia”.
Defesa da vida e dignidade humana
Ao apresentar os critérios para a escolha dos candidatos, dom Paulo colocou entre os pontos a serem considerados o compromisso com a defesa da vida e destacou que “votar bem implica escolher bem os candidatos, olhar a história do candidato”.
“Hoje isso é muito fácil, né, através das mídias sociais, você pode você pode consultar, você pode ver, você pode você tem como saber alguma coisa sobre o candidato, ver as propostas do candidato, ver o partido que ele tá afiliado, ver o que que ele pensa do bem comum” e “vê o seu compromisso com a vida, desde a sua concepção até a sua morte natural”, disse
Ainda segundo o cardeal, “a política é a arte do bem comum, mas o bem comum não é um conceito abstrato. É um conceito que se concretiza na saúde, na educação, na moradia digna, trabalho digno, na liberdade, na cultura, no cuidado da casa comum, no cuidado com os mais pobres”.
Dom Odilo também destacou a dignidade da pessoa humana entre os princípios que devem orientar a escolha dos candidatos.
“A vida política deve defender a dignidade humana. E a dignidade dos direitos humanos são sagrados”, disse o cardeal que acrescentou que a política deve considerar ainda “a solidariedade social” o “bem comum” e “o amor preferencial pelos pobres”.
Contra a polarização e a instrumentalização da fé
A polarização política foi outro dos temas centrais do programa. Dom Odilo disse que o adversário político não deve ser tratado como inimigo.
“Não precisa todo mundo pensar de maneira igual. E é bom que haja muitas formas diferentes de pensar e que precisam se harmonizar no diálogo, no debate, na forma de melhor propor a edificação do bem comum, das sociedades, na paz, na solidariedade”, disse.
Para ele, “a pretensão de ter que eliminar o adversário não é muito humana” e fere “o princípio da solidariedade, princípio até mesmo da justiça, do respeito, da dignidade humana” algo que “não é” o “pensamento cristão em relação à política”.
O arcebispo do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta, também pediu que as divergências políticas não se transformem em inimizade.
“Nós podemos ter opiniões diversas, opções e propostas diversas, mas somos chamados a respeitar um ao outro e cada um tem sua opção”, disse. “Gostaria que as polarizações que acontecem e têm acontecido tanto não fosse assim, porque nós podemos ter propostas, projetos, mas sem inimizade, que não dividisse a família, não dividisse a comunidade, a Igreja.”
Dom Orani também destacou a responsabilidade dos católicos que atuam na política. “Há um incentivo também para que todos os cristãos, católicos, de modo especial, possam somente se colocar na política para fazer o bem, para cuidar do bem comum.”
Dom Odilo, por sua vez, alertou contra os extremismos. “Fundamentalismos, extremismos não edificam, não constroem, sejam fundamentalismos políticos que, portanto, excluem a diversidade política, a via única, isso não é bom.”
Participação política é responsabilidade cristã
O arcebispo de Salvador, cardeal Sergio da Rocha, ressaltou que a fé não pode ficar restrita à vida privada e que os leigos são chamados a participar da vida pública.
“A participação política dos cristãos leigos e leigas [...] é consequência da fé. Fé professada, fé celebrada, deve ser também fé vivida”, disse.
Segundo dom Sergio, a Igreja não adota posições político-partidárias, mas os católicos leigos podem participar da política partidária. “A Igreja e suas instituições não adotam posição político-partidária, mas os leigos e leigas devem participar da política também pela via partidária. É claro que uma presença sempre coerente com a fé professada”.
O cardeal também incentivou os católicos a conhecerem a Doutrina Social da Igreja para orientar seu discernimento político.
“A Igreja não oferece soluções técnicas para os problemas sociais, mas aquilo que ela tem de mais precioso: a fé, o Evangelho, o Magistério”, disse.
Meio ambiente e cuidado da “casa comum”
O arcebispo de Manaus (AM), cardeal Leonardo Ulrich Steiner, participou por meio de uma gravação, pois estava em Roma por questões de agenda. Em sua fala, destacou a responsabilidade dos cristãos no cuidado com o meio ambiente e com a “casa comum”.
“A nossa participação como Igreja é sempre uma participação educativa. Eu gostaria de lembrar que nesse momento eleitoral é importante nós olharmos para a questão do meio ambiente”, disse.
Dom Leonardo falou da contribuição da Igreja para a reflexão ecológica por meio das Campanhas da Fraternidade e citou a encíclica Laudato si’, do papa Francisco.
“Papa Francisco, com a Laudato si, nos mostrou a importância que o meio ambiente tem para a vida do planeta, inclusive chegou a dizer da casa comum. Então nos perguntamos nesse momento eletivo quais são as mulheres e os homens, os irmãos e as irmãs que desejam cuidar da casa comum?!”, questionou o cardeal. “Mas também não esquecemos que quando falamos do meio ambiente, estamos falando de água, de ar, das florestas, estamos falando de uma realidade que nos faz perceber toda uma questão à casa comum. E quando falamos de casa comum não podemos deixar de lembrar os povos indígenas, os povos originários, os povos das florestas. Eles que cuidam especialmente da casa comum”.
Também alertou para problemas como desmatamento e mineração e pediu que os eleitores considerem o compromisso ambiental dos candidatos.
“Votemos bem, não deixemos de votar, mas votemos em pessoas que estejam realmente interessadas em cuidar do meio ambiente”.
Trabalho digno e justiça social
A dignidade do trabalhador também esteve entre os temas abordados pelos cardeais Sergio da Rocha e Raymundo Damasceno.
Dom Sergio chamou atenção para situações que ferem a dignidade humana, como exploração do trabalho infantil, trabalho escravo, falta de descanso e precariedade do trabalho informal.
“São violações gravíssimas que, sem dúvida, destroem a pessoa, a sua família, a dignidade do próprio trabalhador”, disse dom Raymundo. Ele destacou “a igreja não fala de salário mínimo, fala de salário justo, isto é aquele salário com o qual o trabalhador pode viver dignamente, atender as suas necessidades, educação, saúde, cuidado dos filhos, a casa e assim por diante”.
“É importante ter em conta de que o trabalho prevalece sobre o capital”, disse dom Damasceno.
Fonte https://www.acidigital.com/
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