Leão XIV leva à UNESCO alerta sobre inteligência artificial e defesa da dignidade humana

 O papa Leão XIV levou nesta sexta-feira à sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Paris, uma mensagem centrada nos desafios impostos pela inteligência artificial e na necessidade de preservar o ser humano no centro das transformações tecnológicas. A visita faz parte da primeira viagem do pontífice à França, que se estende até segunda-feira, com passagens por Paris, Lourdes e Metz.


A presença de Leão XIV na UNESCO ocorre 46 anos depois da visita de João Paulo II à organização, em 1980. O encontro desta sexta-feira reúne autoridades, pesquisadores, artistas, intelectuais e jovens para discutir o impacto da inteligência artificial sobre a educação, a informação, a criatividade e a convivência entre as sociedades.

Em sua passagem pela organização, o papa destacou a preocupação com um futuro em que o avanço das máquinas possa ultrapassar a capacidade humana de controlar suas próprias escolhas. Em discurso realizado durante a viagem, Leão XIV advertiu para o risco de se perder a dimensão humana em meio a um eventual “paraíso das máquinas” e defendeu a educação para o discernimento ético como uma resposta aos novos desafios tecnológicos.

Ao abordar a educação e a dignidade humana, Leão XIV retoma uma preocupação presente no magistério de seus antecessores. Em suas intervenções, o pontífice destaca que a educação deve contribuir para a formação integral da pessoa e para o bem comum, afirmando que seu valor deve ser medido em relação à dignidade humana, à justiça e à capacidade de servir aos outros. Essa visão dialoga com o discurso de João Paulo II na UNESCO, em 1980, quando o papa afirmou que a educação tem como tarefa ajudar o ser humano a “ser” mais, e não apenas a “ter” mais, relacionando a formação humana à dignidade da pessoa. Também se aproxima do legado de Francisco, que colocou a educação e a proteção dos mais vulneráveis entre temas centrais de seu pontificado


A inteligência artificial
é um dos principais temas da visita. A UNESCO tem defendido uma abordagem internacional para o desenvolvimento da tecnologia, com atenção à igualdade de oportunidades, à inclusão e à proteção de direitos. A organização também relaciona o debate sobre IA à educação, à integridade da informação e à criação artística. 

O discurso de Leão XIV ocorre ainda em um momento de intenso debate internacional sobre os limites e a regulamentação da inteligência artificial. O pontífice vem colocando o tema entre as questões centrais de seu pontificado e defendendo que o desenvolvimento tecnológico seja acompanhado por princípios éticos e pela proteção da dignidade humana. 

A escolha da UNESCO como palco da mensagem também tem um significado simbólico. A organização das Nações Unidas atua nas áreas de educação, ciência, cultura e informação — setores diretamente afetados pela expansão da inteligência artificial. Para a UNESCO, a visita representa uma oportunidade de aprofundar a cooperação com a Santa Sé em torno de um modelo de inovação que mantenha valores humanos como referência. 

Além da tecnologia, a viagem francesa do papa é marcada por uma agenda relacionada à paz, aos direitos humanos e ao papel da educação na construção das sociedades. Antes da visita à UNESCO, Leão XIV esteve no Palácio do Eliseu, onde falou sobre dignidade humana, liberdade e a necessidade de promover a paz

Ao levar o debate sobre inteligência artificial para uma instituição internacional dedicada à educação, à ciência e à cultura, Leão XIV procura inserir a Igreja Católica em uma discussão que ultrapassa as fronteiras religiosas. A mensagem apresentada em Paris coloca em primeiro plano uma questão que deverá acompanhar governos, universidades e empresas nos próximos anos: como aproveitar os avanços da tecnologia sem deixar que eles reduzam o espaço destinado à autonomia, à criatividade e às decisões humanas.

O que significa ser humanos?


Antes de mais, a pessoa humana é alguém que é concebido e nasce. E enquanto filhos, somos todos irmãos. Em segundo lugar, todos necessitados de cuidados e de afeto. Esquecê-lo, significa tratar a vida como mercadoria. Em terceiro lugar, lembrar da nossa humanidade comum significa reconhecer que ela é magnífica, e necessita de justiça para que possa brilhar. E A guerra representa a sua antítese.

Foi então que o tema da paz entrou no discurso do Santo Padre. Esta não pode ser construída apenas com tratados, mas “é verdadeira quando brota da virtude da justiça, mais do que de um mero contrato”. Hoje, analisou, formas de barbárie fomentam rivalidades e conflitos. E as novas tecnologias podem se tornar um novo instrumento de domínio e injustiça.

“O paradoxo tornou-se cada vez mais evidente: enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana, cuja vida é avaliada com base no critério da eficiência e, quando considerada já não produtiva, é rejeitada e descartada.”

Entre Torre de Babel e Pentecostes


O Pontífice reiterou a dignidade da pessoa desde o nascimento até à morte natural, que na fé cristã encontra a sua plena luz em Cristo. Na diversidade de perspectivas, a UNESCO é chamada a criar harmonia entre as nações, num cenário atual que o Pontífice descreveu entre Torre de Babel e Pentecostes.

Na primeira imagem bíblica, hoje se constata uma globalização sem fraternidade, através de um ávido colonialismo financeiro e imposições ideológicas, em que a hiperconexão promove “novas formas de isolamento, de miséria material e espiritual, de abandono”.

“A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria.”

Sem uma deontologia compartilhada, alertou, corre-se o risco de multiplicar informações falsas. A inteligência artificial acentua este problema, com consequências inclusive morais. Uma delas, é a corrupção.

“Em vez de respeitar a lei, quem detém o poder invoca-a quando ela serve aos seus interesses e ignora-a quando esta os limita, chegando mesmo a tratar a justiça como uma mercadoria que se compra e vende. Se percebermos que a corrupção da lei tem a sua origem na corrupção do coração, podemos compreender que qualquer ciência, praticada sem ética, corre o risco de perder o sentido, deixando de servir e refletir a dignidade humana.”

A este respeito, o Pontífice exortou a comunidade internacional a dedicar especial atenção à proteção das crianças e jovens.

Uma Terra para todos e uma única e comum natureza humana


Para redimir a cultura, Leão XIV oferece a imagem bíblica da praça de Pentecostes, onde a mensagem de paz é acolhida por todos como boa nova. “Não é a prepotência de Babel, mas a paz de Pentecostes que possibilita essa comunhão entre os povos.”

Sempre que encontrarmos obstáculos à nossa missão, lembremo-nos de que existe apenas uma Terra para todos e uma única e comum natureza humana, disse o Papa, incluindo a crise ecológica como um empecilho à plena realização do homem.

Diante das numerosas e complexas urgências do nosso tempo, o Pontífice reiterou a confiança que a Santa Sé deposita não só na UNESCO, mas em todas instituições internacionais. “Não se trata de pregar um otimismo ingênuo que ignore as dificuldades, mas sim de perseverar na esperança de que o bem é sempre possível.” A Santa Sé acredita que a educação seja o instrumento para superar medos recíprocos e que a ciência possa servir a vida de cada ser humano, semeando no presente a boa colheita do futuro.

Ao chegar ao final do seu discurso, o Papa retomou o tema do sentido e como as religiões podem colaborar nesta busca comum. “Não caminhamos para o nada”, afirmou, fazendo votos de que o encontro reforce a consciência de pertencer a uma única humanidade.


“Ao apoiar os seus anseios de justiça, com gratidão e estima invoco sobre todos vocês e sobre as suas Nações a abundância das bênçãos de Deus, Criador todo-poderoso e misericordioso. Obrigado.” 






Por Andre Ribeiro


Fontes

  • UNESCO — informações oficiais sobre a visita de Leão XIV à organização e os temas do encontro, como inteligência artificial, educação, paz e integridade da informação.
  • Vatican News — cobertura em português da viagem do Papa à França e dos discursos realizados em Paris.
  • Santa Sé – Sala de Imprensa — programação oficial da viagem apostólica de Leão XIV à França e à UNESCO.

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