Neste Evangelho, Jesus ensina aos seus discípulos como agir quando um irmão comete uma falta. É importante perceber que a primeira atitude de Jesus não é condenar, expor ou humilhar quem errou. Ele diz: “vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo”.
Isso revela uma dimensão profundamente cristã da correção: o objetivo não é vencer uma discussão, mas recuperar uma pessoa.
Jesus completa: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.” Essa expressão é muito significativa. O irmão que errou não é apresentado como um inimigo que precisa ser derrotado. Ele continua sendo irmão. Por isso, a correção deve nascer do amor e buscar a reconciliação.
1. Corrigir com amor, não com julgamento
Na vida cotidiana, é muito fácil falar dos erros dos outros. Podemos comentar, criticar, espalhar uma história ou expor alguém diante de outras pessoas.
Jesus propõe justamente o contrário.
Primeiro, devemos procurar a pessoa em particular. Isso é um ensinamento de caridade e também de respeito pela dignidade do outro.
A correção fraterna exige humildade. Antes de corrigir alguém, precisamos também perguntar a nós mesmos:
“Estou fazendo isso por amor ou porque quero mostrar que estou certo?”
A verdadeira correção cristã não procura humilhar. Procura ajudar.
2. “Tu ganhaste o teu irmão”
Essa frase é o coração da passagem.Jesus não diz: “você venceu”. Ele diz: “tu ganhaste o teu irmão.”
Na perspectiva cristã, quando ajudamos alguém a reconhecer seu erro e retornar ao caminho do bem, todos ganham. A reconciliação restaura uma relação que estava ferida.
Isso também nos ensina que corrigir alguém pode ser um verdadeiro ato de misericórdia.
Entretanto, a correção precisa ser feita com prudência, humildade e caridade. Não somos chamados a controlar a vida dos outros nem a procurar defeitos em todos. A correção fraterna começa pelo desejo sincero de fazer o bem.
3. E quando a pessoa não aceita a correção?
Jesus apresenta um caminho gradual: primeiro, conversar a sós; depois, procurar a ajuda de uma ou duas pessoas; e, se necessário, levar a questão à comunidade.
Existe aqui um princípio importante: não transformar imediatamente um problema pessoal em exposição pública.
A Igreja procura preservar a verdade, mas também a dignidade da pessoa.
Quando alguém não reconhece seu erro, a comunidade pode ajudar no discernimento. Porém, se a pessoa permanece obstinada em rejeitar a correção, Jesus fala de uma separação da comunidade.
Isso não significa que o cristão deve odiar ou abandonar definitivamente aquela pessoa. Pelo contrário: mesmo quando existe disciplina, permanece o chamado à oração, ao amor e à esperança de conversão.
4. “Dize-o à Igreja”
Aqui encontramos também uma importante dimensão eclesial.
Para a fé católica, Jesus não quis formar apenas indivíduos que acreditassem nele isoladamente. Ele constituiu uma Igreja, uma comunidade de fé.
A Igreja possui a missão de ensinar, orientar, corrigir e conduzir os fiéis no caminho do Evangelho.
Por isso, a vida cristã não deve ser construída apenas segundo aquilo que cada pessoa pensa ou deseja. Existe uma comunidade, existe uma fé recebida dos Apóstolos e existe uma autoridade espiritual confiada por Cristo à sua Igreja.
5. “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu”
Essa passagem está relacionada à autoridade que Cristo confia à Igreja.
A expressão “ligar e desligar” aparece no Evangelho como linguagem de autoridade espiritual. Em Mateus 16,19, Jesus utiliza palavras semelhantes ao falar com Pedro. Aqui, em Mateus 18, essa autoridade aparece também no contexto da comunidade.
Para a tradição católica, isso está relacionado à missão apostólica da Igreja e, de modo especial, à sua autoridade para ensinar, governar e exercer a disciplina eclesial.
Também podemos compreender que Cristo leva a sério a vida da comunidade: aquilo que acontece na Igreja não é indiferente diante de Deus.
6. “Se dois de vós estiverem de acordo...”
Jesus então passa da correção fraterna para a oração comunitária.
Ele afirma que, quando os discípulos se unem em oração, o Pai está atento ao seu pedido.
Isso não significa que qualquer coisa que duas pessoas peçam necessariamente acontecerá exatamente como desejam. A oração cristã não é uma fórmula para obrigar Deus a realizar nossa vontade.
O verdadeiro sentido da oração é colocar nosso coração diante do Pai e buscar aquilo que está de acordo com sua vontade.
Quando a comunidade cristã reza unida, ela manifesta sua confiança em Deus.
7. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí”
Esta é uma das frases mais consoladoras do Evangelho.
Jesus não está presente somente nas grandes multidões. Ele promete sua presença também quando “dois ou três” se reúnem em seu nome.
Isso tem uma importância especial para a vida católica.
Quando uma família se reúne para rezar, quando uma comunidade participa da Santa Missa, quando pessoas se unem para rezar o terço, quando cristãos se reúnem para pedir perdão, agradecer ou interceder por alguém, Cristo está no meio deles.
A presença de Jesus transforma a comunidade em um lugar de encontro, reconciliação e esperança.
Uma mensagem para a nossa vida
Mateus 18,15-20 nos apresenta um verdadeiro caminho cristão: quando alguém errar, procure primeiro a reconciliação; quando precisar corrigir, faça-o com amor; quando houver conflito, busque a verdade sem humilhar; quando não souber o que fazer, procure a comunidade; e, acima de tudo, reze.
Jesus nos ensina que a fraternidade cristã não significa fingir que os erros não existem. Amar também significa ter coragem de ajudar o outro a voltar para o caminho certo.
Mas a correção só é verdadeiramente cristã quando está acompanhada de humildade, misericórdia e desejo de restauração.
No final, Jesus nos oferece uma grande certeza:
“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles.”
É essa presença de Cristo que sustenta a Igreja, fortalece nossas famílias e nos dá coragem para perdoar, corrigir, recomeçar e caminhar juntos na fé.
POR André Ribeiro
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