Por que a sexta-feira é dedicada ao Sagrado Coração de Jesus?

 Uma catequese sobre o amor de Cristo, a Paixão e a devoção ao seu Coração 


Para muitos católicos, a sexta-feira possui um significado especial: é um dia particularmente associado à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por isso, tornou-se também um dia muito apropriado para honrar o Sagrado Coração de Jesus.

Mas por que justamente a sexta-feira? E por que existe uma devoção especial à primeira sexta-feira de cada mês?

Para compreender essa prática, precisamos voltar ao centro da fé cristã: Jesus Cristo que nos amou até o fim e entregou sua vida por nossa salvação.

1. O que significa o “Coração de Jesus”?


Quando a Igreja fala do Sagrado Coração de Jesus, não está falando simplesmente de um órgão do corpo de Cristo ou de um símbolo sentimental.

Na linguagem bíblica, o coração representa o centro da pessoa: seus pensamentos, sua vontade, seus sentimentos e, sobretudo, seu amor.

O Catecismo ensina que Jesus nos conheceu e nos amou com um verdadeiro coração humano. Seu Coração traspassado na cruz é sinal do amor infinito com que Ele ama o Pai e cada ser humano. 

Por isso, contemplar o Coração de Jesus é contemplar a própria Pessoa de Cristo e o seu amor divino e humano por nós.

O Papa Bento XVI explicou que, no Coração do Redentor, adoramos o amor de Deus pela humanidade, sua vontade de salvar e sua misericórdia infinita. 

2. Por que a sexta-feira?


A resposta está na Paixão de Nosso Senhor. Foi na sexta-feira que Jesus sofreu sua Paixão e morreu na cruz. São João relata que, depois da morte de Cristo, um soldado abriu seu lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água:

“Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.”
(Jo 19,34)

A Igreja sempre contemplou nessa ferida aberta de Cristo uma expressão profunda do seu amor. O Coração de Jesus aparece, portanto, inseparavelmente unido à Cruz. Ele nos amou não apenas com palavras. Amou-nos entregando-se por nós. São Paulo resume esse mistério dizendo:

“Cristo amou-nos e entregou-se por nós.”
(Ef 5,2)

É por isso que a sexta-feira, dia tradicional de memória da Paixão, possui uma ligação tão profunda com a devoção ao Coração de Cristo.

O Papa Pio XII, na encíclica Haurietis Aquas, explica que o Coração traspassado de Cristo é sinal vivo do amor com que o Salvador entregou seu sangue pela redenção da humanidade.

3. A sexta-feira não é apenas um dia de tristeza


É importante compreender isso corretamente. A devoção ao Sagrado Coração não é uma devoção à tristeza, à dor ou ao sofrimento por si mesmos. Nós contemplamos a Paixão porque nela descobrimos o amor de Cristo.A cruz revela a profundidade desse amor:

Jesus sofreu porque nos amou.
Jesus entregou-se porque nos amou.
Jesus perdoou porque nos amou.
Jesus abriu seu Coração porque nos amou.

Por isso, o Sagrado Coração não é apenas o coração ferido de Cristo; é o Coração que, mesmo ferido, continua sendo fonte de misericórdia.

São João Paulo II chamou o Coração de Cristo de fonte de vida e santidade, de paz e reconciliação

4. E por que a primeira sexta-feira de cada mês?


Aqui encontramos uma prática específica da devoção ao Sagrado Coração.

A tradição católica difundiu especialmente a prática de receber a Sagrada Comunhão na primeira sexta-feira de cada mês, acompanhada de uma vida de oração, conversão, confissão sacramental e espírito de reparação.

Essa prática está ligada às revelações privadas recebidas por Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa visitandina do século XVII, que teve papel fundamental na propagação da devoção ao Sagrado Coração.

É importante fazer uma distinção catequética: as revelações privadas não acrescentam novas verdades à Revelação pública contida na Sagrada Escritura e na Tradição.

A própria Igreja, ao explicar a história dessa devoção, ensina que as revelações recebidas por Santa Margarida Maria não acrescentaram uma nova doutrina à fé católica. Elas ajudaram a chamar novamente a atenção dos cristãos para o amor misericordioso de Cristo. 

Assim, a devoção ao Sagrado Coração não depende de uma “nova revelação”, mas está profundamente enraizada no próprio Evangelho.

5. O que significa “reparar” o Coração de Jesus?

Uma palavra muito importante nessa devoção é reparação.

Reparar significa procurar responder ao amor de Cristo diante do pecado, da ingratidão e da indiferença humana.

Quando contemplamos Jesus crucificado, reconhecemos:

  • quanto Deus nos ama;

  • como o pecado fere a comunhão com Deus;

  • a necessidade de conversão;

  • a necessidade de pedir perdão;

  • o dever de amar a Deus e ao próximo.

Pio XI explicou que a reparação ocupa lugar central na devoção ao Sagrado Coração, estando ligada ao arrependimento pelos pecados e ao desejo de corresponder ao amor de Cristo. Portanto, reparar não significa “completar” aquilo que faltaria à redenção realizada por Jesus. A redenção de Cristo é perfeita e suficiente.

A reparação significa unir nosso amor, nossas orações, penitências e sacrifícios ao amor de Cristo, participando da vida de conversão que Ele nos pede.

6. O Sagrado Coração nos conduz à Eucaristia


Existe ainda uma ligação muito profunda entre o Sagrado Coração e a Eucaristia.

Jesus entregou seu Corpo e seu Sangue por nós e permanece verdadeiramente presente na Eucaristia. Por isso, a devoção ao Sagrado Coração não deve ser separada da Santa Missa, da adoração eucarística e da Sagrada Comunhão.

Pio XII ensinou que o culto ao Sagrado Coração conduz ao próprio amor de Deus manifestado em Jesus Cristo e estimula o cristão a responder a esse amor com adoração, ação de graças e imitação. Assim, uma boa devoção da primeira sexta-feira não consiste simplesmente em “cumprir uma promessa”.

O objetivo é encontrar Cristo, converter-se a Ele e crescer no amor.

7. E o que fazer em uma sexta-feira dedicada ao Sagrado Coração?


Um católico pode viver essa sexta-feira de maneira muito simples e profunda.

Pode:


E, sobretudo, é necessário lembrar que a devoção deve produzir frutos na vida. Não adianta venerar o Coração de Jesus e cultivar um coração fechado ao próximo. O verdadeiro devoto do Sagrado Coração procura aprender de Cristo, que disse:

“Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.”
(Mt 11,29)

8. O verdadeiro sentido da devoção


O Papa Francisco explicou que o Coração de Cristo é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus e recordou que, no Evangelho, somos convidados a aproximar-nos de Jesus manso e humilde de coração. Portanto, honrar o Sagrado Coração significa deixar que o nosso próprio coração seja transformado.

Jesus nos ensina a amar quando somos rejeitados.

A perdoar quando somos feridos.

A servir quando seria mais fácil pensar somente em nós.

A ter misericórdia quando o mundo nos ensina a julgar.

A permanecer fiéis quando surgem dificuldades.

É nesse sentido que a devoção ao Sagrado Coração é uma verdadeira escola de vida cristã.

A sexta-feira nos recorda a Cruz. A Cruz nos revela o amor. E o amor nos conduz ao Coração de Cristo.

Por isso, a devoção ao Sagrado Coração encontra na sexta-feira um momento particularmente significativo: contemplamos o Coração daquele que “nos amou e se entregou por nós”.

A Igreja, especialmente através da devoção da primeira sexta-feira de cada mês, convida os fiéis a unir oração, Eucaristia, conversão, reparação e amor.

No fundo, a mensagem do Sagrado Coração é muito simples:

Cristo nos ama.
Cristo entregou-se por nós.
Cristo continua a chamar-nos para junto de seu Coração.
E quem experimenta esse amor é chamado a amar como Ele amou.

Por Andre RIbeiro


Fontes católicas

  1. Catecismo da Igreja Católica — nº 478

  2. Pio XI, Encíclica Miserentissimus Redemptor (1928)

  3. Pio XII, Encíclica Haurietis Aquas (1956)

  4. Francisco, Angelus de 9 de junho de 2013

  5. Bento XVI, Angelus de 5 de junho de 2005

  6. São João Paulo II, Audiência Geral de 20 de junho de 1979 

Comentários