As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, sobre o fim do celibato e a ordenação de mulheres na Igreja causaram “desconforto”, disse o arcebispo de Porto Alegre (RS), cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em entrevista à CNN, ontem (23).
“Causou, sim, um desconforto, porque o discurso fez uma comparação entre um aspecto, eu diria assim, religioso e outro”, disse dom Jaime.
Em um encontro com americanos e brasileiros da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, no Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 16 de setembro, Lula disse que teve “a oportunidade de falar para o papa Francisco” sobre esses temas. “Enquanto a Igreja Católica não acabar com o celibato e permitir que as mulheres possam ser padres, possam ser bispos, as mulheres poderem falar, sabe? A gente vai ver a Igreja Católica passar dificuldades”, disse. Para Lula, o fato de a mulher poder “ser o que ela quiser” é o que “faz com que a Igreja Evangélica tenha crescido tanto no Brasil”.
Dom Jaime disse ontem à CNN que, “nesse momento em que nós estamos vivendo, esse tipo de discurso não nos ajuda e não favorece o entendimento”.
“Depois”, acrescentou, “a Igreja como tal, ela possui uma disciplina própria que é fruto de uma longa, vasta e rica tradição que, creio, não cabe discussão num espaço como o espaço político”.
O presidente da CNBB disse que a fala do presidente gerou reações. “Fomos duramente cobrados por alguns setores também internos da Igreja Católica”, disse. “Mas creio que conseguimos, de alguma forma, chegar a um bom termo diante dessa manifestação, eu diria, inapropriada nesse momento que estamos vivendo”, acrescentou.
Dom Jaime contou que “parte do clero, mas também de leigos, nos cobravam uma manifestação a respeito das declarações citadas”.
“Nós avaliamos a declaração, avaliamos também os pedidos que nos chegaram, ou as críticas que nos chegaram diante dessa manifestação, e avaliamos que não seria conveniente alimentar ainda mais o debate em torno de uma questão que não nos ajudaria a avançar no debate que nós estamos fazendo neste tempo que antecede as eleições”, disse. Para o presidente da CNBB, uma manifestação sobre as declarações de Lula “seria criar, talvez, ainda mais acirramento de posições, de opiniões”. “E nós não necessitados, nem precisamos disso”, disse.
Promover consciência política
O cardeal Jaime Spengler falou também na entrevista à CNN sobre a posição da Igreja nesse período eleitoral. Ele ressaltou que “a Igreja não entra no debate político-partidário”. “O que desejamos, pretendemos e buscamos realizar é promover consciência política”, disse.
O presidente da CNBB recordou recentes notas publicadas pela conferência episcopal, como a mensagem “ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026”, a mensagem por ocasião do dia 7 de setembro e a mensagem “Pela verdade, pela justiça e pela preservação das instituições democráticas”, sobre fatos envolvendo o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal.
“Nós, junto ao nosso povo, a nossa gente, buscamos ajudar a promover isso que denominamos consciência política através de manifestações”, disse dom Jaime e citou como exemplo “recente” o vídeo publicado pelo Regional Norte 1 CNBB, “alertando e orientando para a necessária consciente participação no pleito que se aproxima”.
O vídeo citado por dom Jaime foi publicado na segunda-feira (21) nas redes sociais do Regional Norte 1 da CNBB, que engloba as dioceses e prelazias do Amazonas e de Roraima. Nele, os bispos do regional incentivam os fiéis a votarem. “Nós não temos partido, mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia”, disse o arcebispo de Manaus (AM), cardeal Leonardo Steiner ao final do vídeo.
Dom Jaime Spengler disse à CNN que há “várias manifestações de dioceses” do Brasil sobre as eleições, “ressaltando elementos, critérios que precisamos ter presente, ou que convém ter presente na hora em que formos chamados a manifestar as nossas escolhas por esse ou aquele candidato ou candidata”.
“Repito: a Igreja não entra no debate partidário, a Igreja busca promover consciência política”, concluiu.
Fonte Vatican News
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