A Igreja celebra, no dia 8 de setembro, a Natividade da Santíssima Virgem Maria. Esta celebração, embora não corresponda a uma festa diretamente narrada nas Sagradas Escrituras, possui profundo significado para a fé católica: recordamos o nascimento daquela que, pela graça de Deus e em vista da missão que receberia, foi escolhida para ser a Mãe de Jesus Cristo, nosso Salvador.
Celebrar o nascimento de Maria é contemplar o início de uma história que está intimamente ligada ao mistério da nossa salvação.
1. Maria nasceu dentro do plano de Deus
A vida de Maria não pode ser compreendida isoladamente. Desde toda a eternidade, Deus quis realizar a obra da redenção por meio de Jesus Cristo e, em sua providência, quis que o Salvador nascesse de uma mulher.
São Paulo afirma:
“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher.”(Gl 4,4)
Essa “mulher” é Maria. Seu nascimento, portanto, é contemplado pela Igreja à luz de Cristo. Maria não é o centro último da fé cristã — Cristo é o centro —, mas ela ocupa um lugar singular na história da salvação porque foi escolhida para cooperar de maneira única com a obra de seu Filho.
Por isso, a Natividade de Maria nos faz olhar para a ação silenciosa e providente de Deus. Antes que Maria pudesse dizer seu “sim” na Anunciação, sua existência já estava sendo conduzida pela graça divina.
2. Uma festa antiga da Igreja
A Sagrada Escritura não relata o nascimento de Maria nem apresenta os nomes de seus pais. A tradição cristã, porém, conservou os nomes de Joaquim e Ana, especialmente por meio do Protoevangelho de Tiago, um antigo escrito cristão não pertencente ao cânon bíblico.
A Igreja não fundamenta a fé nesses relatos apócrifos como se fossem Escritura, mas a tradição sobre Joaquim e Ana permaneceu profundamente presente na piedade cristã.
Assim, quando celebramos a Natividade de Nossa Senhora, não estamos simplesmente comemorando o nascimento de uma menina extraordinária. Estamos contemplando, com os olhos da fé, o nascimento daquela que seria preparada por Deus para uma missão extraordinária.
3. Maria, a “cheia de graça”
Um dos maiores mistérios relacionados à pessoa de Maria é sua Imaculada Conceição.
A Igreja ensina que Maria, desde o primeiro instante de sua concepção, foi preservada da mancha do pecado original, por singular graça e privilégio de Deus, em previsão dos méritos de Jesus Cristo.
Isso significa que Maria não foi salva independentemente de Cristo. Pelo contrário: foi salva por Cristo de modo ainda mais sublime, sendo preservada do pecado em vista da missão que receberia.
O Catecismo da Igreja Católica ensina:
“Desde toda a eternidade, Deus escolheu, para Mãe de seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia, ‘uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria’.”
A Natividade de Maria, portanto, pode ser contemplada como o nascimento daquela que a Igreja reconhece como a Imaculada, inteiramente aberta à graça de Deus.
4. Deus age também nas coisas pequenas
Existe algo profundamente catequético na Natividade de Nossa Senhora: Deus começa grandes obras de maneira aparentemente pequena.
O nascimento de Maria não aconteceu aos olhos do mundo como um acontecimento político ou grandioso. Não houve exércitos, palácios ou multidões. Uma criança nasceu em uma família do povo de Israel.
Entretanto, naquela pequena vida estava inserido um mistério imenso.
Isso nos ensina que Deus não despreza o pequeno. Muitas vezes, sua graça atua silenciosamente, no interior de uma família, na educação dos filhos, na oração de uma mãe, na fidelidade de um pai, na perseverança de uma pessoa simples.
A história da salvação está cheia desses pequenos começos.
O nascimento de Maria nos recorda que uma vida entregue a Deus pode produzir frutos que ultrapassam aquilo que os olhos humanos conseguem perceber.
5. Maria e a esperança de Israel
Maria nasceu no seio do povo da Aliança. Ela era filha de Israel e pertencia ao povo que aguardava o cumprimento das promessas de Deus.
Nela se encontram, de maneira admirável, as expectativas do Antigo Testamento e o início da realização plena das promessas em Cristo.
A Igreja vê Maria como aquela que está profundamente vinculada à esperança messiânica de Israel. Nela, a espera pelo Salvador chega a um momento decisivo.
Pouco tempo depois, o anjo Gabriel lhe anunciaria:
“Não tenhas medo, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.”(Lc 1,30)
E Maria responderia com aquela palavra que mudaria a história:
“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”(Lc 1,38)
A Natividade prepara, portanto, o caminho para a Anunciação; e a Anunciação prepara o caminho para a Encarnação.
6. O nascimento de Maria aponta para Jesus
Uma verdadeira devoção mariana sempre conduz a Cristo.
Maria não existe para substituir Jesus, mas para nos levar até Ele. Sua grandeza está precisamente em sua relação com o Filho.
No Evangelho de São João, Maria aparece nas bodas de Caná e diz aos serventes:
“Fazei tudo o que ele vos disser.”(Jo 2,5)
Essa frase resume maravilhosamente sua missão materna: conduzir-nos à obediência a Cristo.
Por isso, celebrar sua Natividade não significa simplesmente exaltar Maria. Significa agradecer a Deus pelo dom daquela que cooperaria livremente com o projeto divino de nos dar o Salvador.
7. O que a Natividade de Maria ensina às famílias?
A festa de hoje possui uma mensagem particularmente importante para as famílias católicas.
Maria nasceu em uma família. Embora conheçamos pouco sobre sua infância histórica, a tradição cristã sempre contemplou nela uma criança educada na fé de Israel e preparada para servir a Deus.
Isso nos lembra que a família possui uma missão fundamental na transmissão da fé.
Os pais são chamados a ensinar os filhos a rezar, a conhecer Jesus, a amar a Igreja, a viver os sacramentos e a reconhecer a presença de Deus na própria vida.
Celebrar o nascimento de Maria pode ser uma oportunidade para perguntar:
Que lugar Deus ocupa em nossa família?
Estamos educando nossos filhos para a santidade?
Nossa casa é um lugar onde se aprende a rezar e a amar?
A santidade não começa necessariamente em grandes obras. Muitas vezes, começa no cotidiano: numa oração antes das refeições, no perdão, na participação na Santa Missa, na caridade, na paciência e na fidelidade aos deveres.
8. Maria, modelo de discípula
Maria é chamada pela Igreja de Mãe de Deus, porque aquele que nasceu dela segundo a carne é verdadeiramente o Filho eterno de Deus feito homem.
Mas ela também é modelo perfeito de discípula.
Ela escuta a Palavra, acolhe a graça, confia em Deus e permanece fiel mesmo quando não compreende plenamente os acontecimentos.
Desde o “faça-se” da Anunciação até a presença silenciosa junto à Cruz, Maria permanece unida ao seu Filho.
A Natividade é, assim, uma oportunidade para contemplarmos o início da vida daquela que se tornaria modelo de fé para todos os cristãos.
9. Uma celebração de esperança
O nascimento de Maria também possui um caráter profundamente esperançoso.
A Igreja celebra a Natividade da Virgem poucos dias antes da festa da Exaltação da Santa Cruz, e a tradição litúrgica contempla a existência de Maria sempre em relação ao mistério de Cristo.
Onde Deus começa uma obra, há esperança.
Maria nos recorda que a graça pode transformar uma vida inteira e que Deus continua chamando pessoas para colaborar com seu Reino.
Por isso, celebrar sua Natividade é também renovar nossa confiança em Deus.
“Bendita sois vós entre as mulheres”
A Natividade de Nossa Senhora nos convida a agradecer a Deus pelo nascimento daquela que seria a Mãe do Salvador.
Maria é criatura, não deusa. É totalmente dependente da graça de Deus e foi salva pelos méritos de Cristo. Sua grandeza consiste precisamente em ter acolhido essa graça com plena docilidade.
Por isso, olhando para Maria, aprendemos a dizer também o nosso “sim” a Deus.
Que a Virgem Maria nos ensine a escutar a Palavra, a confiar na providência divina, a amar Jesus Cristo e a permanecer fiéis até o fim.
Neste dia de sua Natividade, podemos elevar ao Senhor uma oração simples:
Senhor Deus, nós vos agradecemos pelo nascimento da Santíssima Virgem Maria. Concedei-nos, por sua intercessão, um coração humilde, puro e disponível à vossa vontade. Que, seguindo seu exemplo, saibamos acolher Jesus Cristo, nosso Salvador, e conduzir nossa vida segundo o Evangelho. Amém.
Nossa Senhora da Natividade, rogai por nós!
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós!
Por Andre Ribeiro
Fontes principais
- Gálatas 4,4-5 — “Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher”.
- Lucas 1,26-38 — Anunciação do nascimento de Jesus e o “faça-se” de Maria.
- Lucas 1,39-45 — Visitação de Maria a Isabel.
- Lucas 1,46-55 — Magnificat.
- João 2,1-12 — Bodas de Caná e a intercessão de Maria.
- João 19,25-27 — Maria aos pés da Cruz.
- §§ 484-511 — Maria no mistério de Cristo.
- §§ 490-493 — A Imaculada Conceição e a “cheia de graça”.
- §§ 495-507 — A maternidade divina e a virgindade de Maria.
- §§ 963-975 — Maria, Mãe da Igreja.
- Concílio Vaticano II — Constituição Dogmática Lumen GentiumCapítulo VIII, §§ 52-69: “A Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no Mistério de Cristo e da Igreja”. Especialmente §§ 52-56, sobre Maria na história da salvação, sua maternidade divina, sua santidade e sua cooperação com o plano de Deus.
- Lumen Gentium — Vaticano
- Compêndio do Catecismo da Igreja Católica§§ 95-100 — Maria no plano de Deus, Imaculada Conceição, cooperação na salvação, maternidade divina e virgindade. V
- Compêndio do Catecismo — Vaticano
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