Em sua viagem à França, de 25 a 28 de setembro, o Pontífice visitará a capital, Paris, Lourdes, onde se encontra o santuário mariano, e Metz, cidade natal de Robert Schuman, um dos pais fundadores da União Europeia.
A viagem de Leão XIV à França, de 25 a 28 de setembro, será também um percurso pela história do cristianismo francês. Paris e Saint-Denis, primeiras etapas da visita, colocarão o Papa diante de diferentes momentos da trajetória da Igreja no país: das tradições ligadas a São Dionísio, primeiro bispo de Paris, aos novos rostos das comunidades cristãs; dos lugares de estudo e formação aos espaços de acolhida de pessoas em situação de exílio. Em meio a essa diversidade, emerge uma mesma pergunta: como anunciar o Evangelho em um mundo em transformação?
Nas pegadas de São Dionísio
Na tarde de sexta-feira, Leão XIV percorrerá de papamóvel os 2,5 quilômetros que separam a igreja de Notre-Dame-des-Champs da praça Saint-Michel. O trajeto remete às origens da evangelização de Paris e à memória de São Dionísio, tradicionalmente considerado o primeiro bispo da cidade. Segundo a tradição preservada pela paróquia, Notre-Dame-des-Champs estaria relacionada a um antigo santuário situado na região da atual rue Pierre-Nicole, onde Dionísio teria pregado aos habitantes de Lutécia.
A figura de Dionísio, porém, situa-se entre a tradição e a história. A Legenda Áurea ampliou os relatos sobre sua vida, enquanto Gregório de Tours, no final do século VI, o apresenta como um dos bispos enviados para evangelizar a Gália e relata seu martírio durante as perseguições romanas. Os dados arqueológicos, por sua vez, confirmam a antiguidade do local funerário e do santuário de Saint-Denis, mas não permitem comprovar todos os episódios associados à sua vida. O que permanece como elemento central é a memória de um bispo missionário e de uma Igreja que, desde suas origens, recebeu a tarefa de anunciar o Evangelho.
A própria Notre-Dame-des-Champs testemunha as mudanças históricas da missão. O antigo priorado, posteriormente transformado em Carmelo, foi destruído durante a Revolução Francesa. A atual igreja, construída a partir de 1867 no boulevard du Montparnasse, retomou o antigo nome. Próximo dali, o Institut Catholique de Paris, fundado em 1875 no antigo convento dos Carmelitas, acrescentou outra dimensão ao percurso: a transmissão da fé por meio do estudo e da formação.
É justamente nesse espaço que Leão XIV estará na manhã seguinte, para encontrar membros da Assembleia Sinodal provincial, catecúmenos e neófitos. O encontro colocará lado a lado a transmissão do conhecimento e os primeiros passos na vida cristã. O percurso público da sexta-feira terminará na Place Saint-Michel, diante da fonte construída entre 1858 e 1860, cuja figura central é o arcanjo Miguel vencendo o demônio.
Notre-Dame, memória e renascimento
Outro momento significativo será a visita à catedral de Notre-Dame, onde Leão XIV celebrará as Vésperas com bispos, sacerdotes, diáconos, pessoas consagradas e seminaristas da França. A catedral constitui um dos lugares em que a memória nacional e a memória da Igreja se encontram de maneira particularmente forte. Sua história, contudo, é anterior à construção gótica iniciada no século XII. O complexo religioso que a precedeu incluía a antiga igreja de Saint-Étienne e o batistério de Saint-Jean-le-Rond, embora a configuração exata dessas primeiras construções ainda seja objeto de debate entre os estudiosos.
Notre-Dame também guarda a memória de diferentes períodos da história cristã francesa. A Sainte-Chapelle, construída por São Luís para abrigar relíquias da Paixão, está intimamente ligada à história do patrimônio cristão de Paris. Atualmente, a catedral conserva a Coroa de espinhos, parte da madeira da Cruz e um dos pregos da Paixão. Depois das devastações da Revolução Francesa, dos sucessivos trabalhos de restauração e do incêndio de 2019, Notre-Dame voltou a se apresentar como uma catedral marcada pela capacidade de renascimento.
A catedral também é lembrada como lugar de conversões. Durante as Vésperas celebradas em 12 de setembro de 2008, Bento XVI recordou a conversão do escritor Paul Claudel e falou de Notre-Dame como um lugar de numerosas conversões, algumas conhecidas e outras discretas, além de recordar os pregadores que ali anunciaram o Evangelho a públicos diversos.
Maison Bakhita: a missão no coração da cidade
No sábado pela manhã, a dimensão missionária da viagem ganhará um rosto diferente na Maison Bakhita, no 18º arrondissement de Paris. O espaço acompanha e promove a integração de pessoas em situação de exílio. Ali, a missão aparece ligada à hospitalidade, ao encontro e à atenção cotidiana às pessoas.
A instituição recebeu o nome de Josefina Bakhita, mulher sudanesa que foi escravizada, torturada e vendida, antes de se tornar religiosa na Itália. Canonizada por São João Paulo II em 1º de outubro de 2000, Bakhita tornou-se também uma referência da esperança cristã. A Maison Bakhita procura responder ao apelo lançado pelo Papa Francisco em 2017 para “acolher, proteger, promover e integrar” as pessoas em situação de exílio.
Bento XVI apresentou a trajetória de Bakhita como um testemunho da esperança cristã na encíclica Spe salvi. Segundo o texto, seu encontro com Deus permitiu-lhe descobrir uma esperança maior do que a simples expectativa de encontrar senhores menos cruéis: a consciência de ser definitivamente amada e esperada pelo Amor. Essa experiência, acrescentava Bento XVI, despertou nela o desejo de compartilhar a libertação recebida.
A presença de Leão XIV na Maison Bakhita coloca, assim, a questão migratória dentro do horizonte da missão cristã. Em uma sociedade na qual a acolhida aos migrantes também provoca divisões no interior das próprias comunidades cristãs, a instituição propõe começar pelo encontro e pela relação pessoal.
Saint-Denis: raízes que se tornam novos caminhos
O itinerário do Papa chegará novamente a Saint-Denis durante o fim de semana, quando mais de 80 mil jovens, entre 17 e 35 anos, são esperados no Stade de France para uma vigília de oração com Leão XIV. O local recupera simbolicamente o ponto de partida da narrativa missionária associada a São Dionísio.
Segundo a tradição, Dionísio teria sido decapitado em Montmartre e, depois, carregado a própria cabeça até o lugar onde seria sepultado, na atual Saint-Denis. Sobre seu túmulo surgiu a basílica que posteriormente se tornou a necrópole dos reis da França. A história do local também está ligada a personagens como Carlos Magno, São Luís e Joana d'Arc. Em 1429, Joana teria depositado sua armadura na basílica depois do fracasso do ataque a Paris.
ara muitos dos jovens que estarão no estádio, entretanto, essa herança poderá assumir formas diferentes. Nem todos receberam as mesmas histórias, tradições familiares ou referências espirituais. A transmissão da fé, nesse contexto, não significa simplesmente repetir o passado, mas permitir que a herança cristã adquira novos rostos e seja vivida por novas gerações.
A própria diocese de Saint-Denis apresenta sinais dessa diversidade. Entre as iniciativas de preparação para a visita papal está a venda de bonés e tecidos wax para contribuir com o financiamento da visita, em uma preparação marcada por cores e elementos culturais diversos. O gesto pode ser visto como expressão de uma Igreja que procura transmitir a fé sem apagar a diversidade das pessoas que a compõem.
Entre memória e futuro
O itinerário de Leão XIV por Paris e Saint-Denis reúne, desse modo, lugares e experiências muito diferentes: a memória dos primeiros evangelizadores, os espaços de formação intelectual, a catedral reconstruída após o incêndio, a acolhida de migrantes e a presença de milhares de jovens reunidos para rezar.
Mais do que simplesmente retornar às origens, o percurso evidencia uma continuidade entre a história e os novos desafios. Das antigas ruas de Lutécia às arquibancadas do Stade de France, das pedras restauradas de Notre-Dame à Maison Bakhita, a missão aparece como um movimento simultâneo de acolher uma herança e responder a novos encontros.
Nesse sentido, o caminho de Leão XIV pela França pode ser lido à luz de duas imagens presentes no texto: raízes e asas. As raízes remetem à longa história de santos, mártires, comunidades e lugares que marcaram o cristianismo francês. As asas apontam para a necessidade de alcançar pessoas, culturas e realidades novas. Entre a fidelidade à própria história e a abertura aos novos desafios, a missão da Igreja continua a procurar seus caminhos.
*Com Agência Fides
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