Pesquisa da UFRJ monitora mais de 7 mil cultos e missas e revela baixa incidência de propaganda eleitoral

Levantamento analisou 7.456 celebrações religiosas em 25 estados e no Distrito Federal; conteúdo cívico foi mais frequente do que manifestações de apoio ou ataque a candidatos.


Uma pesquisa realizada pelo grupo Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a organização More in Common Brasil, analisou 7.456 cultos evangélicos e missas católicas transmitidos pelo YouTube nos dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições de 2026. O objetivo foi identificar menções políticas, manifestações de apoio a candidaturas e possíveis práticas de propaganda eleitoral durante as celebrações religiosas.

O levantamento examinou 13.886 horas de áudio, referentes a cerimônias realizadas em 25 estados brasileiros e no Distrito Federal, nos dias 20 e 27 de setembro. Os resultados indicaram que a propaganda eleitoral esteve presente em aproximadamente 3,2% das celebrações analisadas, enquanto mensagens de caráter cívico apareceram em cerca de 15,3% das transmissões.

A pesquisa identificou diferenças entre as tradições religiosas observadas. Nas missas católicas, a propaganda eleitoral foi registrada em 0,7% das celebrações. Entre os cultos batistas, o percentual foi de 1,4%, enquanto nas Assembleias de Deus chegou a 8,3%.

As manifestações políticas incluíram referências explícitas a candidatos, orientações de voto e críticas a determinadas candidaturas. Em alguns casos, as mensagens estavam relacionadas a disputas para cargos legislativos, como deputado estadual e federal, e não apenas à eleição presidencial.

Por outro lado, os pesquisadores identificaram com maior frequência conteúdos considerados cívicos, como incentivos ao voto consciente, reflexões sobre a participação democrática e mensagens contrárias à polarização política.


                Fonte imagens Danuzio

Religião e política em debate

O monitoramento reacendeu o debate sobre a relação entre religião, política e liberdade de expressão. Embora a legislação eleitoral estabeleça restrições à propaganda em templos religiosos, a identificação de uma menção política não significa, por si só, que tenha ocorrido uma infração. A avaliação depende do conteúdo, das circunstâncias e dos critérios previstos na legislação.

Outro aspecto importante é que o levantamento se concentrou em celebrações transmitidas publicamente pelo YouTube. Dessa forma, os resultados não representam necessariamente o que acontece em todas as igrejas brasileiras, especialmente naquelas que não disponibilizam seus cultos e missas na internet.

A pesquisa também não abrangeu todas as formas de circulação de mensagens políticas entre religiosos, como conversas particulares, encontros comunitários e grupos de aplicativos de mensagens.

Resultados contribuem para a discussão pública

Os dados apresentados pelos pesquisadores oferecem informações para compreender como temas políticos aparecem em celebrações religiosas durante períodos eleitorais. Ao mesmo tempo, levantam questões sobre os limites entre a manifestação de opiniões religiosas, a participação cidadã e a propaganda eleitoral.

O estudo demonstra a importância de analisar os discursos religiosos considerando suas particularidades e o contexto em que são produzidos. A discussão envolve tanto o cumprimento das regras eleitorais quanto a preservação da liberdade religiosa e de expressão.

Os responsáveis pela pesquisa informaram que o material coletado poderá contribuir para novas análises sobre religião, comportamento político e participação democrática no Brasil.


Países conhecidos por vigiar ou controlar pregações religiosas


  • 1. China O Estado controla o registro de organizações religiosas e impõe restrições às atividades de comunidades religiosas não autorizadas. Há também vigilância tecnológica e censura de conteúdo religioso, especialmente em regiões como Xinjiang e no Tibete.
  • 2.Rússia Leis sobre extremismo e atividades religiosas podem ser utilizadas contra pregadores e comunidades religiosas. Também há casos documentados de punição a líderes por manifestações religiosas de conteúdo político
  • 3. Nicarágua Há relatos de vigilância, assédio e repressão contra líderes e comunidades religiosas, especialmente quando suas atividades são vistas como críticas ao governo


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