Catequese : Por que é errado chamar Jesus de progressista?

Nos dias de hoje, tornou-se comum ouvir pessoas afirmarem que Jesus era progressista, socialista ou representante de alguma corrente política moderna. Geralmente, essa afirmação se apoia no fato de que Nosso Senhor acolhia os pobres, aproximava-se dos pecadores, denunciava a hipocrisia dos poderosos e ensinava o amor ao próximo.



Por André Ribeiro

Entretanto, embora essas atitudes estejam verdadeiramente presentes no Evangelho, concluir que Jesus era progressista no sentido político contemporâneo constitui um erro de interpretação.
Jesus Cristo não veio ao mundo para promover uma ideologia humana, mas para salvar a humanidade do pecado e reconciliá-la com Deus.

Jesus Cristo não pertence a nenhuma ideologia política
As categorias políticas de esquerda e direita, tais como as conhecemos hoje, não correspondem ao contexto histórico em que Jesus viveu. Aplicá-las diretamente à sua pessoa significa tentar enquadrar o Filho de Deus em classificações humanas que não conseguem abarcar a totalidade de sua mensagem.

Cristo não é propriedade de nenhum partido, movimento político ou corrente ideológica. Ele é o Senhor da história e o Salvador de todos os homens.

O amor de Jesus pelos pobres não faz dele um militante ideológico

É verdade que Jesus demonstrou uma atenção especial aos pobres, aos doentes, aos marginalizados e aos pecadores. No Evangelho segundo Lucas, lemos:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres.” (Lucas 4,18)

Esse ensinamento não deve ser ignorado ou minimizado. A Igreja Católica sempre reconheceu a dignidade dos pobres e a obrigação moral de socorrê-los.

Contudo, existe uma diferença fundamental entre reconhecer a dimensão social do Evangelho e transformar Jesus em símbolo de uma ideologia política.

Jesus não ensinou que a salvação seria alcançada simplesmente pela transformação das estruturas econômicas ou pela adesão a determinado projeto político. Ele chamou todos à conversão, ao arrependimento, à santidade e à vida eterna.

Quando Cristo se aproximava dos pecadores, não aprovava o pecado: oferecia-lhes a misericórdia e chamava-os a uma vida nova. Quando denunciava a injustiça, não substituía a verdade moral pelas preferências políticas de seu tempo.

Portanto, utilizar o amor de Jesus pelos pobres como prova de que Ele pertencia à esquerda política é selecionar determinados aspectos do Evangelho e desconsiderar o conjunto de seus ensinamentos.

Jesus também ensinou verdades que contrariam o pensamento moderno

Muitas pessoas apresentam Jesus como alguém que simplesmente aceitava todas as opiniões e comportamentos, como se sua mensagem consistisse em aprovar tudo em nome do amor.

Essa visão não corresponde à totalidade dos Evangelhos.

Jesus era misericordioso, mas também chamava à conversão. Acolhia os pecadores, mas não tratava o pecado como algo indiferente. Ensinava o amor, mas também falava da verdade, do juízo, da responsabilidade moral e da necessidade de renunciar a si mesmo.

Em João 14,6, Nosso Senhor afirma:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.”

A verdade cristã não pode ser reduzida àquilo que uma sociedade considera moderno, progressista ou aceitável. Para o católico, o critério último da vida moral não é a aprovação de uma corrente política, mas a fidelidade a Deus e àquilo que Ele revelou.

Por isso, seria igualmente errado tentar transformar Jesus em um conservador político moderno. O erro não está apenas em atribuir-lhe ideias progressistas, mas em submeter sua mensagem a qualquer ideologia humana.

O que ensina a Igreja Católica?

O Catecismo da Igreja Católica, nos números 2419 a 2425, explica que a doutrina social da Igreja nasce do Evangelho e orienta a vida humana em sociedade. Ela defende a dignidade da pessoa humana, a justiça e a paz, sem se reduzir a um sistema político ou econômico.

No número 2425, o Catecismo rejeita as ideologias totalitárias e ateias associadas ao comunismo ou socialismo e, ao mesmo tempo, critica o individualismo e a primazia absoluta do mercado sobre o trabalho humano.

Isso demonstra que a Igreja não pode ser identificada automaticamente com um dos lados do espectro político. Ela avalia as propostas humanas à luz da verdade moral e do bem comum.

Além disso, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, no número 50, ensina que a Igreja não se confunde com a comunidade política nem está vinculada a um sistema político específico.

A consequência é clara: não devemos interpretar o Evangelho como se fosse um manifesto partidário. Devemos avaliar as ideologias à luz de Cristo, e não interpretar Cristo segundo as exigências das ideologias.

O Reino de Deus não é um programa partidário

Quando Jesus declarou, em João 18,36, que seu Reino não era deste mundo, não quis dizer que os cristãos deveriam ser indiferentes à injustiça ou abandonar suas responsabilidades sociais.

Ele ensinou, antes, que seu Reino não tem origem nem natureza idênticas às dos poderes políticos terrenos. Sua missão não se esgota na conquista do poder, na reorganização econômica ou na vitória de um movimento político.

O Reino de Deus exige uma transformação muito mais profunda: a conversão do coração humano, a reconciliação com Deus e a vivência da caridade, da justiça e da verdade.

O cristão deve trabalhar para melhorar a sociedade, defender os vulneráveis e combater as injustiças. Entretanto, não pode imaginar que um sistema político, por mais promissor que pareça, seja capaz de substituir a graça de Deus ou realizar plenamente a salvação humana.

Nenhum partido pode ocupar o lugar de Cristo.

O perigo de instrumentalizar Jesus

Quando alguém afirma que Jesus era progressista para legitimar todas as posições de determinada corrente política, corre o risco de transformar o Senhor em instrumento de suas próprias convicções.

O mesmo acontece quando alguém invoca Jesus para justificar o egoísmo, a indiferença diante dos pobres ou a defesa irrestrita de interesses econômicos particulares.

Ambas as atitudes são problemáticas porque colocam a ideologia acima do Evangelho.

O católico não deve perguntar apenas se uma proposta parece moderna ou tradicional, popular ou impopular. Deve perguntar se ela respeita a dignidade humana, a verdade, a justiça, a vida, a família, a liberdade responsável e o bem comum.

Isso exige discernimento, formação da consciência e fidelidade ao ensinamento da Igreja.

Não basta selecionar as passagens bíblicas que confirmam nossas opiniões. É necessário acolher todo o ensinamento de Cristo, inclusive quando ele confronta nossas preferências pessoais.

Cristo está acima da esquerda e da direita

Dizer que Jesus era progressista, quando isso significa classificá-lo como representante de uma ideologia política moderna, é um anacronismo e uma redução de sua missão divina.

Jesus amou os pobres, condenou a hipocrisia, denunciou a injustiça e ensinou a misericórdia. Mas também chamou à conversão, proclamou a verdade e revelou o caminho da salvação.

Essas dimensões não podem ser separadas para fazer de Cristo um símbolo de uma causa política.

A posição católica não consiste em negar a importância das questões sociais, nem em declarar que todas as opções políticas são moralmente equivalentes. Consiste em reconhecer que nenhuma ideologia humana contém, por si só, a plenitude da verdade revelada por Deus.

Jesus não deve ser adaptado à esquerda nem à direita. É a esquerda, a direita e qualquer outra corrente humana que devem ser julgadas à luz da verdade de Cristo.

O verdadeiro discípulo não procura um Jesus moldado às suas preferências, mas procura conformar a própria vida àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Fontes para aprofundamento: Catecismo da Igreja Católica, §§ 2419–2425; Compêndio da Doutrina Social da Igreja, §§ 49–51; Evangelhos de Lucas 4,18 e João 14,6; 18,36.

Fontes

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