O que significa ser verdadeiramente "ungido por Deus" segundo a tradição e a doutrina católica? No coração da fé católica, a unção não é um privilégio de isolamento ou uma declaração de superioridade, mas sim o chamado à santidade, à missão e ao serviço.
Quando professamos a nossa fé e dizemos “Jesus Cristo”, muitas vezes pronunciamos essas duas palavras sem perceber toda a riqueza do seu significado. “Jesus” é o nome do Salvador; “Cristo” não é simplesmente um sobrenome, mas um título que revela a missão de Jesus.
A palavra Cristo vem do grego Christós, tradução do hebraico Messias, e significa “Ungido”. Por isso, dizer que Jesus é o Cristo é proclamar que Ele é o Ungido de Deus, aquele que foi enviado pelo Pai e consagrado pelo Espírito Santo para realizar a obra da nossa salvação. O Catecismo da Igreja Católica apresenta essa verdade especialmente nos números 436 a 440.
O que significa ser “ungido”?
Na Bíblia, a unção possui um significado muito profundo. No Antigo Testamento, o óleo era utilizado para consagrar pessoas escolhidas por Deus para uma missão especial.
Eram ungidos, sobretudo:
- os reis, chamados a governar o povo segundo a vontade de Deus;
- os sacerdotes, consagrados para o serviço e o culto a Deus;
- em alguns casos, os profetas, escolhidos para anunciar a Palavra do Senhor.
A unção indicava, portanto, que aquela pessoa havia sido escolhida e consagrada para uma missão recebida de Deus. O Catecismo explica que o Messias esperado deveria ser o Ungido por excelência, aquele que estabeleceria o Reino de Deus.
Jesus é o verdadeiro Ungido de Deus
Jesus não é apenas mais um dos ungidos mencionados na Bíblia. Ele é o Ungido por excelência.
No seu batismo no rio Jordão, o Espírito Santo desce sobre Jesus e o Pai manifesta a sua presença. São Pedro resume essa realidade dizendo:
“Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder.”(At 10,38)
Essa unção manifesta publicamente a missão de Jesus. Ele é o Messias prometido, o Salvador enviado pelo Pai.
O Catecismo ensina que a consagração messiânica de Jesus revela a sua missão divina: o Pai é aquele que unge, o Filho é aquele que é ungido, e o Espírito Santo é a Unção.
Por isso, quando chamamos Jesus de Cristo, estamos professando uma verdadeira profissão de fé: Jesus é o Messias, o Ungido de Deus, enviado para nossa salvação.
Jesus é Sacerdote, Profeta e Rei
Jesus realiza perfeitamente as três grandes funções associadas à missão do Messias: Sacerdote, Profeta e Rei.
Jesus é Sacerdote
O sacerdote apresenta a Deus as orações e necessidades do povo. No Antigo Testamento, os sacerdotes ofereciam sacrifícios.
Jesus, porém, oferece algo infinitamente maior: oferece a si mesmo.
Na cruz, Cristo entrega livremente a própria vida pela nossa salvação. Ele é, ao mesmo tempo, o Sacerdote que oferece e a própria Oferta.
Por isso, a cruz não é uma derrota. É o lugar onde o amor de Cristo se manifesta plenamente.
Jesus é Profeta
O profeta é aquele que fala em nome de Deus e anuncia a verdade.
Jesus é o Profeta por excelência porque não apenas transmite uma mensagem de Deus: Ele é a própria Palavra de Deus feita carne.
Ele anuncia o Reino, chama à conversão, perdoa os pecados, ensina o caminho da vida e revela plenamente o rosto misericordioso do Pai.
Quando escutamos Jesus no Evangelho, estamos sendo convidados a escutar o próprio Deus.
Jesus é Rei
Jesus também é Rei, mas o seu reinado é diferente dos reinos deste mundo.
Ele mesmo disse:
“O meu Reino não é deste mundo.”
(Jo 18,36)
Jesus reina servindo. Reina através do amor, da humildade, da verdade e da entrega. Seu trono é a cruz. Sua coroa é uma coroa de espinhos.
Seu poder manifesta-se no amor que entrega a própria vida.
É justamente na cruz que se revela o verdadeiro sentido da realeza de Cristo. O Catecismo destaca que Jesus é o Messias que veio para servir e dar a sua vida pela humanidade.
“O Espírito do Senhor está sobre mim”
Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê o texto do profeta Isaías:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu.”
(Lc 4,18)
Depois, Jesus afirma que essa profecia se cumpre nele.
Aqui encontramos uma das mais belas manifestações da identidade de Cristo. Ele é aquele sobre quem repousa o Espírito Santo e que foi enviado para anunciar a Boa-Nova, libertar os oprimidos e proclamar a salvação.
O Catecismo também relaciona a unção de Jesus com a ação do Espírito Santo. A unção com óleo é um símbolo do Espírito, e a primeira grande unção realizada pelo Espírito é a de Jesus.
Cristo, o Ungido, continua presente na Igreja
Jesus Cristo, morto e ressuscitado, continua sendo o centro da vida da Igreja.
Ele envia o Espírito Santo sobre os seus discípulos e faz da Igreja um povo unido a Ele.
O Catecismo ensina que a mesma unção do Espírito Santo que está em Cristo é comunicada ao seu Corpo, que é a Igreja.
Por isso, a vida cristã é uma vida de comunhão com Cristo.
Não somos cristãos apenas porque carregamos um nome ou frequentamos uma igreja. Somos chamados a viver uma relação verdadeira com Jesus, o Ungido de Deus.
Nos tornamos ungidos pela Unção nos Sacramentos do Batismo, da Crisma e do Sacerdócio
Na Bíblia, a unção com óleo é sinal de consagração, escolha e envio para uma missão. Jesus é o Cristo, palavra que significa “Ungido”. Ele é o Ungido do Pai pelo Espírito Santo.
Na Igreja, a unção também possui um significado muito profundo. De modo especial, encontramos o uso do óleo no Batismo, na Crisma e no Sacramento da Ordem. Em cada um deles, a unção nos recorda que Deus nos chama, consagra e envia para uma missão.
A unção no Batismo
No Batismo, depois da água, o batizado é ungido com o Santo Crisma. Essa unção significa que o cristão foi incorporado a Cristo e participa da dignidade de Cristo, o Ungido.
O Catecismo ensina que essa unção é sinal de que o batizado recebeu o Espírito Santo e foi consagrado para participar da missão de Cristo.
Ser batizado não é apenas “pertencer a uma religião”. É começar uma vida nova em Cristo.
Pelo Batismo, somos chamados a viver como:
- filhos de Deus;
- membros da Igreja;
- discípulos de Jesus;
- testemunhas do Evangelho.
Por isso, a unção batismal nos lembra: “Eu pertenço a Cristo e sou chamado a viver como cristão.”
A unção na Crisma
Na Crisma ou Confirmação, a unção com o Santo Crisma possui um significado ainda mais explícito.
O bispo, ou o sacerdote autorizado, unge a fronte do crismando e diz:
“Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, o Dom de Deus.”
A Crisma fortalece e aperfeiçoa a graça recebida no Batismo. O cristão recebe uma força especial do Espírito Santo para testemunhar a fé.
Assim como os Apóstolos receberam o Espírito Santo em Pentecostes, o cristão confirmado é enviado para anunciar Cristo com coragem.
A unção da Crisma nos recorda:
“Sou fortalecido pelo Espírito Santo para ser testemunha de Cristo.”
Por isso, o crismado não deve permanecer como um cristão passivo. Ele é chamado a participar da missão da Igreja, servindo, evangelizando e testemunhando sua fé.
A unção no Sacerdócio
No Sacramento da Ordem, a unção também está ligada à consagração e à missão.
O sacerdote é configurado a Cristo para servir ao povo de Deus. Pela graça do sacramento, ele participa de modo particular do sacerdócio de Cristo e recebe a missão de ensinar, santificar e conduzir o povo de Deus.
Na ordenação sacerdotal, o bispo unge as mãos do novo presbítero com o Santo Crisma. Essa unção manifesta sua consagração para o serviço de Deus e da Igreja.
O sacerdote existe para conduzir as pessoas a Cristo, especialmente através da Eucaristia, da Palavra, dos Sacramentos e do serviço pastoral.
A unção sacerdotal nos recorda:
“Fui consagrado para servir a Cristo e ao seu povo.”
Uma mesma unção, diferentes missões
Batismo, Crisma e Ordem possuem missões diferentes, mas todos apontam para Jesus Cristo, o Ungido de Deus.
No Batismo, somos incorporados a Cristo e começamos nossa vida cristã.
Na Crisma, somos fortalecidos pelo Espírito Santo para testemunhar Cristo.
No Sacramento da Ordem, o ministro ordenado é configurado a Cristo de modo particular para servir à Igreja.
Portanto, a unção não é um simples gesto externo. Ela expressa uma realidade espiritual: Deus nos consagra e nos envia para uma missão.
Diferente de visões que limitam a unção a poucas pessoas "iluminadas", a teologia católica nos ensina que todo batizado é um ungido. Através dos sacramentos da iniciação cristã, participamos da própria vida de Cristo:
O que isso significa para nós?
Existe algo muito bonito nessa verdade: assumimos o nome “cristão” que está relacionado ao próprio nome “Cristo”.
Somos cristãos porque pertencemos a Cristo.
Pelo Batismo, somos incorporados a Ele. O povo de Deus participa, de modo próprio, da missão sacerdotal, profética e real de Cristo. O Catecismo apresenta a Igreja como o povo messiânico cuja Cabeça é Jesus Cristo, o Ungido.
Isso significa que a nossa fé não consiste simplesmente em admirar Jesus de longe. Somos chamados a viver unidos a Ele e participar de sua missão.
Como cristãos:
- somos chamados a oferecer nossa vida a Deus, vivendo nossa dimensão sacerdotal;
- somos chamados a anunciar a verdade do Evangelho, vivendo nossa missão profética;
- somos chamados a servir e amar, participando da realeza de Cristo.
O cristão não reina dominando os outros, mas servindo.
Ser ungido não significa ser superior aos outros
É importante compreender corretamente a linguagem da unção.
Na fé católica, dizer que alguém foi ungido não significa que essa pessoa se tornou superior, poderosa ou incapaz de errar.
A verdadeira unção de Cristo está ligada à missão e ao serviço.
Jesus, o Ungido de Deus, lavou os pés dos discípulos. O Senhor se fez servo.
Por isso, quanto mais recebemos de Deus, maior deve ser também a nossa disposição para servir.
A verdadeira ação do Espírito Santo produz frutos de santidade, caridade, humildade, verdade e serviço.
- A Caridade: O verdadeiro ungido ama até as últimas consequências, especialmente os mais vulneráveis e esquecidos.
- A Comunhão: A unção constrói pontes e unidade; ela nunca gera divisão, soberba ou exclusivismo dentro ou fora da comunidade.
- A Cruz: O Ungido por excelência venceu pelo amor na Cruz. Viver a unção envolve abraçar o sacrifício diário por fidelidade a Deus.
BÍBLIA SAGRADA. Isaías 61,1-2; Mateus 3,13-17; Marcos 1,9-11; Lucas 4,16-21; Lucas 22,24-27; João 1,29-34; João 13,1-15; João 18,33-37; Atos 10,38; Filipenses 2,5-11.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. §§ 436-440; 453; 695; 783-786.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja. Especialmente §§ 9-13 e 31-36. Cidade do Vaticano, 1964.
CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros. Cidade do Vaticano, 1965.
JOÃO PAULO II. Redemptor Hominis: Carta Encíclica sobre o Redentor do Homem. Cidade do Vaticano, 1979.
JOÃO PAULO II. Redemptoris Missio: Carta Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário. Cidade do Vaticano, 1990.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Cidade do Vaticano, 2013.
Fontes principais: Bíblia — Is 61,1; Lc 4,18; At 10,38; Mt 28,19-20; At 2,1-4.
Catecismo da Igreja Católica, §§ 436, 695, 1212-1284, 1285-1321 e 1536-1600.
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